Lula fica refém do congresso que derrubou mais da metade dos vetos presidenciais neste mandato

Lula fica refém do congresso que derrubou mais da metade dos vetos presidenciais neste mandato
Pedro Ladeira
Rejeição recorde de vetos expõe perda de controle do Planalto e consolida novo equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta um dos cenários mais desafiadores de governabilidade desde a redemocratização. Desde o início do atual mandato, o Congresso Nacional já derrubou quase metade dos vetos presidenciais apresentados pelo Planalto, um índice inédito nas últimas duas décadas e superior ao registrado durante o governo de Jair Bolsonaro.

Levantamento com base em dados do Senado Federal mostra que, entre 2023 e 2025, deputados e senadores analisaram 87 vetos de Lula, rejeitando 43 deles o equivalente a 49%. O percentual representa uma ruptura com o padrão histórico observado em governos anteriores, quando a derrubada de vetos era pontual e exceção, não regra.

Nas gestões de Fernando Henrique Cardoso e nos dois primeiros mandatos de Lula, a rejeição de vetos foi residual. Em alguns anos, o Planalto passou sem perder um único veto. O mesmo padrão se manteve nos governos de Dilma Rousseff, quando menos de 5% dos vetos foram derrubados. A inflexão começou no governo Michel Temer e se acentuou na gestão Bolsonaro, atingindo agora um novo patamar sob Lula.

Para especialistas, o fenômeno vai além da fragmentação da base aliada. Trata-se da consolidação de uma nova lógica do presidencialismo de coalizão, marcada pelo fortalecimento institucional do Congresso e pela redução do poder de agenda do Executivo.

O cientista político Fernando Meireles, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, aponta que mudanças no regimento interno do Congresso facilitaram a análise e a derrubada de vetos. Desde 2013, prazos passaram a ser automáticos, sessões conjuntas têm data fixa e a votação independe de comissões mistas, reduzindo o custo político de contrariar o Planalto.

Nesse contexto, a derrubada de vetos deixou de ser um evento excepcional e passou a integrar a rotina legislativa. Para Meireles, mais relevante do que o número absoluto de vetos é a taxa de rejeição, que indica dificuldades crescentes do Executivo em coordenar sua base e impor prioridades.

A professora Graziella Testa avalia que o modelo de presidencialismo de coalizão que funcionava há 15 anos não existe mais. Segundo ela, o Congresso atua hoje de forma mais coesa e autônoma, o que reduz as ferramentas do governo para construir maioria estável.

Já o cientista político Rafael Silveira, do IDP, destaca que há fatores estruturais e conjunturais nesse movimento. A tendência de análise sistemática dos vetos deve permanecer, mas o percentual de rejeições pode variar conforme o cenário político e eleitoral.

A tensão tende a se intensificar com vetos sensíveis no horizonte. Lula já sinalizou que deve vetar o projeto que altera a dosimetria das penas relacionadas aos atos de 8 de Janeiro, decisão que poderá ser novamente revertida pelo Congresso.

O quadro atual revela um Executivo sob pressão permanente, com menos margem de manobra e maior dependência do Legislativo um reposicionamento que redefine, na prática, o centro de poder em Brasília.