Lula volta a atacar a imprensa e crítica a Rede Globo por não divulgar notícias positivas do governo
Presidente acusa veículos de priorizar notícias negativas, questiona campanha sobre milhões de brasileiros que passam fome e cobra maior divulgação dos resultados de sua gestão.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a criticar a imprensa brasileira nesta sexta-feira (6), ao afirmar que os veículos de comunicação dão mais destaque a notícias negativas do que aos resultados de seu governo. Durante reunião do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), em Brasília, o petista também questionou uma campanha de combate à fome divulgada na televisão e associada à Rede Globo, contestando os números apresentados sobre a insegurança alimentar no país.
As declarações foram feitas no Ministério de Minas e Energia, durante um encontro dedicado à discussão de políticas energéticas. Ao abordar a comunicação de sua administração, Lula demonstrou insatisfação com o noticiário e afirmou que jornalistas evitam divulgar informações favoráveis ao governo por receio de serem classificados como aliados do Palácio do Planalto.
“Nós temos uma imprensa que talvez seja correta, não estou fazendo juízo de valor, que ela prefere criticar do que elogiar”, declarou o presidente.
Na avaliação de Lula, os meios de comunicação concentram sua cobertura em controvérsias e problemas, deixando em segundo plano iniciativas que considera positivas. O presidente afirmou que existe uma resistência dos veículos em reconhecer os resultados de políticas públicas.
“A gente olha muita futrica e muita notícia ruim, coisa boa não se olha”, disse.
A manifestação ocorreu poucos dias depois de sua reeleição para um quarto mandato presidencial, em um momento no qual o governo enfrenta cobranças sobre as contas públicas, a trajetória da dívida e a manutenção dos juros elevados.
Durante o discurso, Lula também direcionou críticas à divulgação de uma campanha que alerta para a permanência da fome no Brasil. O presidente afirmou ter visto, na televisão, uma mensagem segundo a qual 7 milhões de crianças estariam passando fome no país.
Incomodado com a informação, questionou a origem dos dados e pediu que a entidade responsável pela iniciativa fosse identificada e investigada.
“Eu quero que você investigue pra saber quem é essa entidade que a Globo está apoiando. Quem é que está contando essa mentira?”, afirmou.
Lula não mencionou o nome da organização responsável pela campanha. A descrição apresentada pelo presidente, entretanto, corresponde a uma iniciativa do Pacto Contra a Fome, desenvolvida em parceria com a agência Africa Creative e lançada em setembro de 2026.
A campanha busca mobilizar doações e chamar a atenção para a situação de brasileiros que ainda enfrentam dificuldades graves para garantir alimentação adequada.
Há, porém, uma diferença importante entre o número mencionado por Lula e o conteúdo divulgado pela organização.
A campanha afirma que aproximadamente 7 milhões de brasileiros convivem com a insegurança alimentar grave, sem restringir esse contingente às crianças.
A mensagem utilizada pela iniciativa destaca a incerteza de milhões de pessoas sobre a próxima refeição e procura estimular a participação da sociedade no enfrentamento da fome.
Portanto, embora o presidente tenha contestado a existência de 7 milhões de crianças nessa condição, o material da campanha se refere à população brasileira em geral.
Para sustentar sua crítica, Lula mencionou os programas federais de combate à fome e a oferta de merenda escolar nas redes públicas de ensino. Segundo ele, as políticas implementadas pelo governo têm contribuído para melhorar a segurança alimentar da população.
O presidente também demonstrou insatisfação com o que considera uma divulgação insuficiente desses resultados.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o Brasil registrou redução da insegurança alimentar grave nos últimos anos, embora o problema permaneça presente em milhões de famílias.
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a proporção de domicílios em situação de insegurança alimentar grave caiu de 4,1% em 2023 para 3,2% em 2024.
Em números absolutos, aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros ainda enfrentavam essa condição em 2024, segundo os dados utilizados na divulgação da pesquisa.
Os números confirmam uma melhora nos indicadores, mas também demonstram que a fome continua sendo uma realidade para uma parcela expressiva da população.
A campanha do Pacto Contra a Fome utiliza justamente esse cenário para defender a continuidade das iniciativas de combate à insegurança alimentar.
As críticas à imprensa não ficaram restritas à campanha exibida na televisão. Lula também questionou a cobertura jornalística sobre a situação fiscal do governo federal.
Durante o encontro, afirmou que recebeu o país com déficit nas contas públicas e que sua administração trabalha para apresentar um orçamento superavitário.
O presidente mencionou um déficit de 2,8%, mas não esclareceu a qual indicador fiscal se referia. Também comparou o endividamento brasileiro ao de países como Estados Unidos, Japão, França e Itália, afirmando que essas economias apresentam dívidas proporcionalmente maiores em relação ao Produto Interno Bruto.
Na avaliação de Lula, essas diferenças deveriam receber maior destaque no noticiário econômico.
A comparação, contudo, envolve países com estruturas de financiamento, moedas e condições de crédito distintas, fatores considerados na avaliação da sustentabilidade das contas públicas.
O presidente também afirmou que pretende preservar a responsabilidade fiscal sem transferir os custos de eventuais ajustes para a população de baixa renda.
Em outra manifestação durante o evento, Lula cobrou que seus ministros ampliem a divulgação das ações da administração federal e apresentem informações capazes de demonstrar os resultados obtidos pelas diferentes áreas do governo.
A cobrança ocorreu em meio às discussões sobre a necessidade de novas medidas fiscais e sobre os desafios econômicos previstos para o mandato que terá início em janeiro de 2027.
O projeto de Orçamento do próximo ano prevê superávit primário de R$ 18,6 bilhões, mas ainda depende de apreciação do Congresso Nacional.
As declarações desta sexta-feira acrescentam mais um episódio ao histórico de divergências entre Lula e setores da imprensa, especialmente quando a cobertura jornalística envolve indicadores econômicos ou resultados de programas sociais.
A Constituição brasileira assegura a liberdade de imprensa e o direito de crítica aos governantes, assim como permite que autoridades contestem informações divulgadas publicamente. A apuração independente e a verificação dos dados são elementos centrais desse debate.
No caso da campanha sobre a fome, os números disponíveis indicam que houve uma diferença entre a informação mencionada pelo presidente e aquela efetivamente divulgada pela organização responsável.
Até a publicação das declarações, Lula não havia apresentado dados que demonstrassem a falsidade do número de brasileiros utilizado na campanha.
A manifestação ocorre enquanto o governo procura ampliar a divulgação de suas realizações e enfrenta o desafio de apresentar respostas às dificuldades econômicas e sociais que continuam afetando a população.