
O avanço de conteúdos associados às chamadas comunidades “red pill”, “incel” e “sigma” nas redes sociais brasileiras passou a mobilizar autoridades federais e especialistas em segurança digital. Relatórios recentes apontam que esse tipo de material, marcado por discursos hostis contra mulheres e por narrativas que normalizam a violência de gênero, tem crescido de forma consistente nas plataformas digitais.
Uma análise conduzida pelo Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro identificou a expansão de canais dedicados à disseminação desse tipo de conteúdo, muitos deles ativos há anos nas principais plataformas de vídeo. O levantamento mostra que a maior parte desses perfis continua disponível e que o número de seguidores aumentou de forma significativa desde as primeiras denúncias feitas por pesquisadores.
Segundo o estudo, canais que difundem conteúdos com ataques ao feminismo e discursos de controle sobre mulheres acumularam mais de 23 milhões de inscritos nas plataformas. Há dois anos, o número era inferior a 20 milhões. No mesmo período, milhares de novos vídeos foram publicados, ampliando o alcance dessas narrativas e consolidando comunidades digitais organizadas em torno desse discurso.
Além da expansão desses canais, uma nova tendência viral nas redes sociais também despertou preocupação. Em vídeos publicados principalmente no TikTok, homens simulam reações violentas a uma hipotética rejeição amorosa. As gravações mostram encenações de agressões físicas e até o uso de armas, frequentemente acompanhadas de frases que fazem referência a ataques contra mulheres.
A repercussão do conteúdo levou órgãos federais a abrir investigações. A Polícia Federal informou que instaurou procedimento para apurar a circulação de vídeos que possam configurar incitação à violência ou apologia a crimes. O material passou a ser analisado após denúncias encaminhadas por autoridades e organizações da sociedade civil.
O Ministério Público Federal também abriu apuração própria para avaliar a legalidade das publicações e verificar possíveis responsabilidades dos autores. Além das investigações, autoridades solicitaram às plataformas digitais a preservação de dados e a remoção de conteúdos considerados ilegais ou que possam incentivar práticas criminosas.
Durante a análise inicial do material, investigadores identificaram diversos vídeos associados à mesma tendência. Parte das publicações já havia sido retirada do ar pelas próprias plataformas após denúncias de usuários e análise de moderadores.
Especialistas em direito digital afirmam que conteúdos desse tipo podem se enquadrar em crimes previstos na legislação brasileira, especialmente quando estimulam ou naturalizam a prática de violência. Em alguns casos, o material também pode ser interpretado como forma de violência psicológica coletiva contra mulheres que entram em contato com esse tipo de conteúdo.
A expansão dessas comunidades digitais também tem sido acompanhada por modelos de monetização. Muitos dos criadores de conteúdo vendem cursos, livros digitais, assinaturas e mentorias online voltadas a seguidores que buscam orientações baseadas nas narrativas difundidas nesses canais.
A investigação segue em andamento e novas medidas podem ser adotadas conforme a análise do material coletado pelas autoridades federais.