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Economia

Peso forte de Milei reduz inflação, mas aumenta pressão sobre economia argentina

Por Brasil no Centro Publicado em 17 de setembro de 2026 às 19:24 4 min de leitura
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Peso forte de Milei reduz inflação, mas aumenta pressão sobre economia argentina

A estratégia do presidente da Argentina, Javier Milei, de manter o peso valorizado como ferramenta de combate à inflação começa a gerar novos desafios para a economia do país. Embora o governo tenha conseguido reduzir significativamente o ritmo de alta dos preços, economistas apontam que a política cambial passou a pressionar setores importantes da atividade econômica, especialmente indústria, comércio e construção.

O peso argentino perdeu 3,7% de valor em relação ao dólar neste ano, enquanto a inflação acumulada chegou a 21,3% até agosto. Apesar da desaceleração em comparação com o início da gestão, a manutenção de uma moeda relativamente forte tem sido sustentada por intervenções do Banco Central argentino nos mercados financeiros e pela continuidade de controles cambiais sobre empresas.

A expectativa do mercado é que a economia argentina tenha registrado crescimento de 0,9% no segundo trimestre em relação aos três meses anteriores, segundo projeções de analistas antes da divulgação oficial dos dados do Produto Interno Bruto (PIB). Parte dos especialistas, porém, avalia que a política cambial adotada pelo governo se tornou um dos principais obstáculos para uma recuperação mais ampla.

“A atividade econômica não primária da Argentina apresenta um desempenho fraco, o que representa riscos para a continuidade das políticas”, afirmou Ivan Stambulsky, analista do banco Barclays, em relatório enviado a investidores. Segundo ele, uma das explicações está na valorização da taxa de câmbio real diante da atual combinação de medidas econômicas.

Desde o início do mandato, Milei conseguiu reduzir a inflação mensal argentina, que chegou a 25,5% no primeiro mês de governo, para 1,7% em agosto. O avanço foi obtido com forte ajuste fiscal, controle da expansão monetária e uma política cambial voltada para estabilizar a moeda.

Durante o primeiro semestre, a entrada de dólares provenientes das exportações agrícolas, especialmente da safra de soja, ajudou o Banco Central argentino a recompor reservas e manter maior estabilidade no mercado cambial. A emissão de dívida externa por empresas também contribuiu para ampliar a oferta de moeda estrangeira.

O cenário, porém, mudou nos últimos meses. A redução do fluxo de dólares das exportações e a menor entrada de recursos externos aumentaram a pressão sobre o câmbio. Para evitar uma desvalorização mais acelerada do peso, o Banco Central passou a utilizar instrumentos financeiros ligados ao dólar, como contratos futuros e títulos indexados à moeda americana.

Segundo estimativas da corretora Facimex, o volume desses instrumentos de proteção cambial mais que dobrou em cinco meses, passando de US$ 5,2 bilhões no fim de março para aproximadamente US$ 12 bilhões em agosto.

“Existe um elevado grau de intervenção do Banco Central argentino”, afirmou Stambulsky, destacando que a autoridade monetária aumentou sua atuação para controlar a demanda por proteção cambial.

O resultado foi uma cotação do peso mais valorizada do que a esperada por muitos analistas. Projeções feitas pelo mercado há um ano indicavam que a moeda poderia chegar a 1.811 pesos por dólar até o fim de 2026. A previsão mais recente caiu para 1.629 pesos.

Para especialistas, o câmbio mais forte ajuda no controle da inflação, mas reduz a competitividade das empresas argentinas, tornando produtos nacionais mais caros em comparação com importados. O impacto já aparece em setores que concentram grande parte dos empregos urbanos.

A indústria de transformação registrou retração de 4,9% em agosto na comparação anual, enquanto a construção caiu 4,5% no mesmo período. Economistas também reduziram as projeções de crescimento da Argentina para 2026, passando de uma expectativa de 3,5% para cerca de 2,1%.

O cenário cria um desafio político para Javier Milei, que busca consolidar sua agenda econômica e se prepara para uma disputa eleitoral no próximo ano. Enquanto setores ligados à energia, mineração e agricultura apresentam desempenho mais positivo, segmentos tradicionais da economia argentina enfrentam dificuldades diante dos juros elevados e da perda de competitividade.

“O governo quer que a inflação desacelere rapidamente, mas o peso valorizado também reflete os custos dessa estratégia”, afirmou Osvaldo Giordano, presidente do Ieral, centro de estudos econômicos da Fundação Mediterránea.

Segundo Giordano, o desafio será equilibrar a estabilidade dos preços com a retomada da atividade em áreas que concentram empregos e renda para a população argentina.