
Grupos de WhatsApp ligados ao PT passaram a circular, nas últimas horas, um conjunto de orientações estratégicas sobre como abordar nas redes sociais a prisão de Jair Bolsonaro (PL). A ordem é clara: atacar, relembrar os crimes, reforçar que não há perseguição — mas sem exagerar no deboche, para não dar munição ao discurso de vitimização que a base bolsonarista tenta construir.
Os conteúdos, distribuídos a militantes, influenciadores e criadores de conteúdo simpáticos ao governo, pedem que todos foquem nos motivos da prisão, relembrem episódios polêmicos do ex-presidente e evitem qualquer associação direta do caso com o presidente Lula.
A lógica, segundo o documento interno, é simples: a Justiça prendeu Bolsonaro e o PT não quer correr o risco de transformar o momento em espetáculo que possa ser usado pelos opositores.
“Bandido bom é bandido preso”, mas com moderação
Entre os materiais sugeridos, há vídeos detalhando a investigação, retomando trechos do julgamento sobre a trama golpista e exibindo imagens da tornozeleira eletrônica danificada com um “ferro quente”. Há também conteúdos resgatando a atuação de Bolsonaro durante a pandemia, supostos vínculos com milicianos no Rio e o apoio dele ao tarifaço dos EUA contra produtos brasileiros.
Apesar da contundência, o próprio texto do grupo adverte: “Não cair na tentação de tirar sarro demais para não contribuir com a vitimização de Bolsonaro”. Outra orientação: evitar memes que coloquem Lula ao lado do ex-presidente, para impedir qualquer narrativa de articulação política ou celebração pessoal.
Segundo a mensagem compartilhada entre os administradores do canal, a prisão deve ser apresentada como “Justiça sendo feita” — não como troféu político. “Bolsonaro não é vítima, ele é culpado por muitos crimes que marcaram a história recente do Brasil”, diz o texto, citando pandemia, casos de corrupção, rachadinhas e até suposto plano para eliminar Lula, Alckmin e Moraes.
Militância acionada para “lembrar tudo”
Os conteúdos foram publicados no mesmo canal criado pelo PT em julho, originalmente para fortalecer a campanha de taxação dos super-ricos. De lá para cá, o grupo se tornou uma central de orientação digital, responsável por mobilizar militantes em ações coordenadas.
O canal foi reativado em momentos importantes, como na reação à retórica de Donald Trump contra o Brasil e na disputa do PL Antifacção no Congresso — e agora entra em modo máximo de operação com a prisão do ex-presidente.
Reação da esquerda: “Hoje o alarme tocou diferente”
Na esteira da detenção, parlamentares de partidos de esquerda não perderam tempo:
- Lindbergh Farias (PT-RJ) chamou o dia de “grande dia”, zombando da frase usada por Bolsonaro em 2019;
- Talíria Petrone (PSOL-RJ) escreveu que “o alarme tocou diferente”;
- Jandira Feghali (PCdoB-RJ) defendeu que a prisão comprova que “ninguém está acima da lei”;
- Glauber Braga (PSOL-RJ) falou em “batalhas pela responsabilização de financiadores e cúmplices”.
O perfil oficial do PT também chegou a compartilhar a notícia, reforçando a linha de que a detenção é resultado direto das instituições — não da política.