
O governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), provocou desconforto no meio empresarial ao aderir, nas redes sociais, a uma campanha de boicote contra a marca Havaianas. O gesto atingiu diretamente a Alpargatas, uma das maiores operações industriais instaladas no estado e responsável por empregar cerca de 2,5 mil trabalhadores no Norte de Minas.
A publicação feita por Zema no dia 24 de dezembro rapidamente ganhou grande repercussão digital, acumulando quase 130 mil curtidas. Embora o alcance tenha sido político, o efeito ultrapassou o ambiente virtual e passou a gerar ruído na relação institucional entre o governo estadual e um dos principais contribuintes e empregadores da economia mineira.
A Alpargatas mantém em Montes Claros uma de suas maiores fábricas do país, unidade que responde por aproximadamente 32% da produção nacional da Havaianas. A planta já produziu mais de 500 milhões de pares e funciona como âncora econômica para uma região historicamente tratada como prioridade nas políticas de desenvolvimento do próprio governo estadual. Além disso, a empresa opera um centro de distribuição em Extrema, no Sul de Minas.
Segundo balanço do terceiro trimestre enviado à Comissão de Valores Mobiliários, a companhia registrou receita líquida de R$ 1,1 bilhão e o maior EBITDA trimestral de sua história, alcançando R$ 256 milhões. Apenas nesse período, foram investidos R$ 55 milhões em melhorias operacionais, reforçando a presença e a geração de valor da empresa em território mineiro.
O mal-estar ocorre em um momento particularmente sensível para o Estado. Minas Gerais se prepara para avançar na adesão ao Programa de Pleno Pagamento da Dívida dos Estados, o Propag, que busca reorganizar um passivo de cerca de R$ 180 bilhões com a União. Nesse contexto, a sinalização pública de confronto com grandes contribuintes do estado é vista com preocupação por setores produtivos.
Ao mesmo tempo, o gesto do governador também carregou simbolismo político e regional. Zema passou a divulgar uma marca concorrente produzida em Nova Serrana, tradicional polo calçadista do Centro-Oeste mineiro. Embora relevante localmente, a operação é significativamente menor do que a estrutura industrial mantida pela Alpargatas em Minas.
No mercado financeiro, a reação foi moderada. As ações da Alpargatas oscilaram ao longo da semana, mas encerraram o período em alta, indicando que o impacto econômico direto foi limitado. Ainda assim, o episódio reacendeu o debate sobre os limites entre posicionamento político pessoal e responsabilidade institucional de um chefe do Executivo estadual.
A polêmica teve origem em uma campanha publicitária estrelada pela atriz Fernanda Torres, cuja fala foi interpretada por grupos de direita como um aceno político. A reação em cadeia nas redes levou a vídeos de boicote e manifestações simbólicas contra a marca, movimento ao qual o governador mineiro decidiu se associar.