Aliado de Lula defende anistia para Bolsonaro e condenados do 8 de janeiro
Presidente da CCJ do Senado, Otto Alencar confirma conversas com Davi Alcolumbre sobre uma proposta de perdão, em meio às articulações para a presidência da Casa em 2027.

O senador Otto Alencar (PSD-BA), aliado do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, defendeu nesta quarta-feira (28) a discussão de uma anistia para os envolvidos nos atos de 8 de janeiro de 2023. A proposta, caso avance com abrangência suficiente, poderá beneficiar também o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado por tentativa de golpe de Estado.
A manifestação representa uma mudança no ambiente de negociações políticas em Brasília, poucos dias depois da reeleição de Lula. Otto confirmou que já conversou sobre o assunto com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e afirmou que o Congresso precisa buscar alternativas para reduzir os conflitos políticos que marcaram os últimos anos.
Segundo informações divulgadas pelo g1, o presidente da CCJ argumentou que a proposta não deve ser tratada como uma iniciativa destinada exclusivamente ao ex-presidente, mas como uma discussão mais ampla sobre a situação das pessoas processadas ou condenadas em decorrência dos ataques às sedes dos Três Poderes.
Otto mencionou questionamentos apresentados pelas defesas de condenados sobre a proporcionalidade das penas aplicadas pela Justiça. Para o senador, essas situações também precisam ser consideradas em uma eventual negociação política.
A declaração chama atenção porque parte de um parlamentar próximo ao governo petista, que poderá desempenhar papel decisivo na tramitação de uma proposta de anistia.
Como presidente da Comissão de Constituição e Justiça, Otto ocupa uma posição estratégica no Senado. Projetos dessa natureza podem passar pela análise do colegiado antes de serem submetidos ao plenário, onde dependerão de apoio parlamentar para avançar.
Apesar da disposição manifestada pelo senador, ainda não existe um acordo formal sobre o conteúdo da proposta, sua abrangência ou o calendário de votação.
A discussão ganhou força depois do segundo turno presidencial, realizado no domingo (25), quando Lula derrotou Flávio Bolsonaro (PL) e conquistou seu quarto mandato.
Desde então, integrantes do Congresso passaram a discutir alternativas para reduzir as tensões entre governo, oposição e Judiciário, em um cenário marcado por questionamentos ao resultado eleitoral e pela reorganização das forças políticas para 2027.
Davi Alcolumbre está entre os principais envolvidos nessas conversas. Segundo interlocutores ouvidos pela CNN Brasil, o presidente do Senado considera a possibilidade de liderar uma negociação institucional que envolva a situação de Jair Bolsonaro e dos condenados pelos acontecimentos de janeiro de 2023.
As possibilidades mencionadas incluem a aprovação de uma anistia pelo Congresso, a concessão de um indulto presidencial ou a revisão de determinadas penas pelo próprio Judiciário.
Nenhuma dessas alternativas foi formalmente acertada.
A anistia exigiria a aprovação de uma lei pelo Congresso Nacional, sujeita às etapas do processo legislativo e à participação do presidente da República, incluindo a possibilidade de sanção ou veto.
O indulto, por sua vez, é um instrumento de competência presidencial, enquanto a revisão de condenações depende de procedimentos próprios perante o Poder Judiciário.
As três alternativas possuem fundamentos e consequências jurídicas diferentes. Sua aplicação aos crimes investigados ou julgados em decorrência da tentativa de ruptura institucional também poderá enfrentar questionamentos constitucionais.
No caso de Jair Bolsonaro, eventual benefício dependeria do alcance da medida adotada e de sua compatibilidade com as normas constitucionais e as decisões judiciais pertinentes. O ex-presidente foi condenado a 27 anos de prisão por sua participação na tentativa de golpe de Estado e cumpre prisão domiciliar.
A possibilidade de incluí-lo em um acordo político é um dos pontos mais sensíveis das conversas, embora Otto Alencar tenha procurado apresentar a discussão como uma iniciativa de alcance coletivo.
O presidente da CCJ afirmou que a proposta precisa considerar diferentes situações jurídicas e que a eventual concessão de benefícios não deve ser confundida com uma medida elaborada exclusivamente para atender a uma liderança política.
A discussão também ocorre em meio à disputa pela presidência do Senado para o próximo biênio.
Alcolumbre pretende permanecer no comando da Casa e precisará obter pelo menos 41 votos para conquistar a reeleição. O cenário parlamentar, entretanto, será diferente a partir de fevereiro de 2027, com o fortalecimento das bancadas de direita.
O PL contará com 28 senadores na próxima legislatura, tornando-se uma força importante nas negociações pela Mesa Diretora.
O senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição e coordenador da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, também participa das articulações para a disputa pelo comando da Casa.
Diante dessa composição, Alcolumbre mantém conversas com representantes de diferentes partidos, incluindo integrantes do PL, em busca de apoio para sua permanência na presidência.
Interlocutores do senador afirmam que a discussão sobre a anistia poderá integrar uma agenda mais ampla de pacificação institucional, mas negam que já exista um acordo concluído em troca de votos na eleição interna do Senado.
Otto Alencar também relacionou suas declarações ao pronunciamento feito por Lula depois da vitória presidencial.
O senador afirmou que o momento exige uma redução da hostilidade entre os grupos políticos e defendeu uma retomada do diálogo entre lideranças partidárias.
Ao mencionar o discurso de pacificação adotado pelo presidente reeleito, Otto recuperou a expressão “Lula paz e amor”, associada à estratégia política que marcou a primeira vitória presidencial do petista, em 2002.
Na avaliação do parlamentar, a construção de entendimentos no Congresso poderá contribuir para diminuir os conflitos que se intensificaram desde as eleições de 2022.
Essa posição, entretanto, ainda não representa um compromisso assumido pelo Palácio do Planalto de apoiar uma anistia.
Lula não anunciou concordância com uma proposta de perdão aos condenados pelo 8 de janeiro, tampouco confirmou disposição para conceder indulto a Jair Bolsonaro.
A eventual negociação dependerá da participação de diferentes atores institucionais e do conteúdo que venha a ser apresentado formalmente.
O debate também acontece em um momento de novos desdobramentos envolvendo Flávio Bolsonaro. Depois da derrota presidencial, o senador deixou o país, circunstância que, segundo aliados de Alcolumbre ouvidos pelo g1, poderá influenciar o ambiente das conversas políticas.
Para Otto, a discussão sobre a anistia ainda precisa amadurecer antes de chegar ao plenário.
O presidente da CCJ afirmou que caberá a Alcolumbre avaliar o momento adequado para conduzir as negociações e eventualmente pautar uma proposta.
Com a nova composição do Senado, a discussão poderá ganhar relevância nas primeiras semanas da legislatura de 2027, especialmente diante da necessidade de construção de maiorias parlamentares.
Por enquanto, o principal avanço é a disposição pública de um aliado de Lula para discutir um tema que vinha sendo defendido sobretudo por parlamentares da oposição.
A declaração de Otto Alencar não assegura a aprovação de uma anistia, mas coloca o assunto entre as negociações políticas que poderão marcar o início do quarto mandato presidencial de Lula e a disputa pelo comando do Senado.