Política com conteúdo. Centro com clareza.
sábado, 31 de outubro
Assinar
Agora
Adriana Vasconcelos: “120 mulheres, uma missão: transformar presença em poder”Hugo Motta quer aprovar voto distrital misto ainda em 2026, mas enfrenta resistência de PT e PLLula tenta reaproximação com Trump e Milei após atritos e aposta em novas alianças internacionaisCom 29 senadores do PL, esquerda busca apoio do centrão para evitar derrotas no SenadoIntelbras demite funcionário após publicação que sugeria execução das filhas de Flávio Bolsonaro
Política

Perícia aponta alterações em quase mil arquivos do celular de Vorcaro após apreensão pela PF

Laudo contratado pela defesa identifica registros de modificações após a apreensão do aparelho e leva ao STF questionamentos sobre a integridade das provas.

Por Brasil no Centro Publicado em 30 de outubro de 2026 às 13:44 5 min de leitura
Compartilhar
Perícia aponta alterações em quase mil arquivos do celular de Vorcaro após apreensão pela PF

A defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta-feira (29), uma perícia particular que aponta registros de alterações em centenas de arquivos de seu telefone celular depois da apreensão realizada pela Polícia Federal (PF). O documento levanta questionamentos sobre a preservação das evidências digitais utilizadas nas investigações de suspeitas de fraudes financeiras envolvendo a instituição.

O levantamento, elaborado pelo perito Marcos Monteiro, contratado pelos advogados de Vorcaro, identificou registros de modificação em 999 arquivos após a apreensão do aparelho, ocorrida em 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. A análise também encontrou indícios de criação de novos arquivos durante o período em que o telefone estava sob custódia policial.

Segundo o relatório, 657 arquivos apresentam registros de alteração em 18 de novembro de 2025, poucas horas depois da apreensão. Desse total, 59 eram bancos de dados. Na mesma data, outros 436 arquivos teriam sido criados, incluindo imagens, registros de configuração do sistema e informações armazenadas em bancos de dados.

A perícia também identificou 340 arquivos com datas de modificação entre 13 e 14 de maio de 2026, aproximadamente seis meses depois da extração inicial dos dados, realizada pela Polícia Federal em novembro do ano anterior.

Entre os elementos mencionados pela defesa está o banco de dados do WhatsApp, responsável pelo armazenamento de informações relacionadas a conversas, chamadas, grupos e arquivos compartilhados no aplicativo. O relatório aponta um registro de modificação desse banco de dados durante a madrugada de 18 de novembro, segundos depois de uma conexão do aparelho por uma porta USB.

Os advogados também destacaram registros de 207 eventos de ativação da tela, 33 acionamentos da câmera frontal associados ao reconhecimento facial e três conexões USB durante o período analisado. A defesa sustenta que essas ocorrências exigem esclarecimentos sobre os procedimentos técnicos adotados pelos responsáveis pela custódia do equipamento.

Apesar dos apontamentos, o laudo não conclui que houve adulteração intencional das provas, tampouco identifica qualquer pessoa como responsável pelas alterações registradas. O próprio perito ressalta que os dados disponíveis não permitem determinar se os eventos decorreram de intervenção humana ou de processos automáticos do sistema operacional.

Reportagem publicada pelo UOL nesta sexta-feira (30) também aponta que diversos registros citados pela defesa são compatíveis com operações automáticas do iPhone, como sincronização, reconhecimento facial e manutenção de arquivos. A análise não identificou evidências conclusivas de desbloqueio indevido do aparelho ou transferência irregular de informações.

O principal questionamento apresentado pelos advogados envolve a chamada cadeia de custódia, conjunto de procedimentos destinados a documentar a coleta, o armazenamento, o manuseio e a análise de materiais utilizados como provas em investigações criminais.

A defesa argumenta que não recebeu todos os arquivos originais da extração nem a documentação técnica necessária para verificar integralmente o conteúdo disponibilizado. Segundo os advogados, a ausência desses elementos impede uma avaliação independente sobre a autenticidade e a integridade das informações.

Na petição encaminhada ao STF, a equipe jurídica solicita que a Polícia Federal forneça os dados brutos do telefone, os registros técnicos dos procedimentos realizados e informações relacionadas à preservação do aparelho desde sua apreensão.

Os advogados também utilizam as conclusões do relatório para reforçar o pedido de liberdade de Vorcaro, que permanece preso enquanto responde às investigações sobre operações financeiras do Banco Master.

A apresentação da perícia ocorreu um dia depois de a Polícia Federal concluir uma etapa do inquérito da Operação Compliance Zero e indiciar Vorcaro e outras 14 pessoas por suspeitas de crimes financeiros.

Segundo a investigação policial, o ex-banqueiro teria exercido papel central em operações envolvendo carteiras de crédito consideradas irregulares e negociadas com o Banco de Brasília (BRB). Os investigadores apontam suspeitas de gestão fraudulenta de instituição financeira, organização criminosa e lavagem de dinheiro.

A defesa contesta as conclusões da Polícia Federal e nega que as operações tenham causado prejuízos ao banco público. Os advogados sustentam que determinados negócios não foram concluídos nos termos inicialmente previstos e que houve substituição de ativos durante as negociações.

A Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais também se manifestou sobre a controvérsia, ressaltando que registros de alterações em arquivos digitais não demonstram, isoladamente, a ocorrência de adulteração ou comprometimento de uma prova.

A Polícia Federal não havia apresentado, nas reportagens consultadas, esclarecimentos específicos sobre todos os questionamentos levantados pela perícia particular.

O material encaminhado ao STF deverá ser examinado no âmbito dos procedimentos relacionados à investigação do Banco Master. A eventual existência de falhas na preservação das evidências, assim como seus possíveis efeitos sobre a validade das provas, dependerá de avaliação judicial.

Por enquanto, os registros identificados pela equipe contratada por Vorcaro representam questionamentos técnicos apresentados pela defesa, sem comprovação de manipulação deliberada do conteúdo apreendido.