Política com conteúdo. Centro com clareza.
sábado, 31 de outubro
Assinar
Agora
Adriana Vasconcelos: “120 mulheres, uma missão: transformar presença em poder”Hugo Motta quer aprovar voto distrital misto ainda em 2026, mas enfrenta resistência de PT e PLLula tenta reaproximação com Trump e Milei após atritos e aposta em novas alianças internacionaisCom 29 senadores do PL, esquerda busca apoio do centrão para evitar derrotas no SenadoIntelbras demite funcionário após publicação que sugeria execução das filhas de Flávio Bolsonaro
Política

Hugo Motta quer aprovar voto distrital misto ainda em 2026, mas enfrenta resistência de PT e PL

Reforma apoiada por PSDB, PSD e partidos do centro pretende mudar a eleição de deputados, reduzir o efeito dos puxadores de votos e fortalecer a representação regional.

Por Brasil no Centro Publicado em 30 de outubro de 2026 às 14:34 7 min de leitura
Compartilhar
Hugo Motta quer aprovar voto distrital misto ainda em 2026, mas enfrenta resistência de PT e PL

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos), pretende colocar em votação ainda em 2026 uma proposta de reforma do sistema eleitoral brasileiro que prevê a adoção do voto distrital misto. A iniciativa reúne o apoio de partidos de centro, entre eles PSDB, PSD, MDB e União Brasil, mas enfrenta resistência do PT e do PL, duas das principais forças políticas do Congresso Nacional.

A articulação ganhou força depois das eleições de outubro, quando o crescimento de bancadas impulsionadas por candidatos com grandes votações individuais reacendeu o debate sobre as regras de escolha dos deputados. A proposta pretende substituir gradualmente o atual sistema proporcional por um modelo que combine representantes eleitos diretamente em distritos e parlamentares escolhidos a partir da votação recebida pelos partidos.

Em reunião realizada na quarta-feira (28), Motta recebeu dirigentes e lideranças do PSD, MDB, União Brasil, PP, Republicanos, PSDB, Cidadania e Podemos para discutir os próximos passos da reforma. O encontro consolidou um entendimento entre essas legendas sobre a necessidade de avançar na discussão ainda antes da posse dos novos deputados federais, prevista para fevereiro de 2027.

Entre os principais defensores da mudança estão o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab (PSD), e o presidente nacional do PSDB, Aécio Neves (PSDB). Ambos participaram das articulações com Motta e defendem a revisão do modelo utilizado atualmente para distribuir as cadeiras no Poder Legislativo.

Pelo sistema proporcional em vigor, os votos recebidos pelos candidatos e pelas legendas são considerados conjuntamente para determinar o número de vagas conquistadas por cada partido ou federação. Depois dessa distribuição, as cadeiras são preenchidas pelos candidatos que atendem às exigências legais e obtiveram as maiores votações dentro de suas respectivas siglas.

Esse mecanismo permite que candidatos com votações expressivas contribuam para a eleição de outros integrantes do mesmo partido, fenômeno conhecido como efeito dos puxadores de votos.

Nas últimas eleições, pouco mais de 30 deputados exerceram influência significativa sobre a distribuição de vagas, contribuindo para a eleição de aproximadamente 60 correligionários. O modelo ganhou notoriedade nacional em 2010, quando o humorista Tiririca conquistou mais de 1,3 milhão de votos e ajudou seu partido a ampliar a representação na Câmara.

Com a expansão das redes sociais, o fenômeno passou a envolver políticos capazes de mobilizar eleitores em diferentes regiões de seus estados. O deputado Nikolas Ferreira (PL), de Minas Gerais, está entre os exemplos de parlamentares com grande capacidade de atração de votos individuais.

A reforma discutida por Motta pretende reduzir essa influência ao estabelecer uma nova forma de distribuição das cadeiras. No sistema distrital misto, o território eleitoral seria dividido em distritos, nos quais candidatos disputariam diretamente parte das vagas. As demais seriam preenchidas de acordo com a votação obtida pelas legendas, por meio de listas partidárias.

O eleitor passaria a participar de duas escolhas: uma para selecionar seu representante no distrito e outra para definir a representação partidária. A proposta busca combinar a vinculação territorial dos parlamentares com a manutenção de um componente proporcional na composição das casas legislativas.

O formato é adotado, com características próprias, em países como a Alemanha e a Nova Zelândia. No Brasil, detalhes fundamentais ainda precisarão ser definidos, incluindo o tamanho dos distritos, a organização das listas e os mecanismos para distribuir as vagas entre os partidos.

A mudança interessa especialmente a legendas com forte presença nas administrações municipais. PSD e MDB, por exemplo, possuem extensas redes de prefeitos e lideranças regionais que poderiam participar da organização das candidaturas nos distritos.

A divisão territorial das disputas também poderá modificar a relação entre os parlamentares e suas bases eleitorais, com candidatos concorrendo diretamente pela representação de regiões delimitadas.

O calendário discutido pelos dirigentes prevê uma transição nas eleições de 2030 e a implantação do sistema distrital misto em 2034. Uma das alternativas apresentadas para a etapa intermediária é a adoção do chamado distritão, modelo em que seriam eleitos os candidatos mais votados individualmente, sem a transferência de votos para outros integrantes da legenda.

A proposta de transição ainda não está definida e será objeto de negociações entre os partidos. Hugo Motta afirmou que pretende construir um entendimento mais amplo antes de submeter a reforma à votação.

As maiores dificuldades estão nas resistências do PT e do PL. As duas legendas possuem candidatos com forte capacidade de mobilização eleitoral e avaliam os possíveis efeitos da mudança sobre a composição de suas bancadas.

No caso do PT, a discussão também envolve sua participação na federação partidária com PV e PCdoB, que atualmente permite a soma dos votos das três legendas para a distribuição das cadeiras. Alterações no sistema eleitoral poderão modificar as estratégias de lançamento de candidaturas e a organização das disputas proporcionais.

O PL, por sua vez, ampliou sua representação na Câmara nas eleições de 2026, beneficiando-se também do desempenho de candidatos com grande popularidade nas redes sociais. O partido terá 121 deputados federais a partir de 2027 e precisará avaliar os impactos da reforma sobre sua estrutura eleitoral.

Além da implantação do distrital misto, os parlamentares discutem alternativas para limitar o efeito dos puxadores de votos ainda dentro do sistema proporcional. Uma das hipóteses mencionadas nos bastidores estabelece um teto de um milhão de votos para o cálculo da contribuição individual de cada candidato na distribuição das cadeiras.

A ideia, entretanto, ainda não foi transformada em uma proposta definitiva e depende de avaliação jurídica e política. Também não há consenso sobre sua compatibilidade com os demais mecanismos do sistema proporcional.

Outro tema que deverá avançar paralelamente é a regulamentação da propaganda eleitoral nas plataformas digitais. Motta anunciou a criação de um grupo de trabalho para discutir mudanças nas regras aplicáveis às campanhas realizadas em redes sociais.

O presidente da Câmara defende a definição de critérios mais claros para a atuação das plataformas e para a divulgação de publicidade eleitoral, considerando a influência crescente das redes digitais sobre as disputas políticas.

A reforma precisará ser aprovada pelas duas Casas do Congresso Nacional. Como envolve uma mudança estrutural no sistema de representação política, a proposta de emenda à Constituição dependerá do apoio de pelo menos três quintos dos integrantes da Câmara e do Senado, em dois turnos de votação em cada Casa.

O presidente da Câmara pretende conversar com Davi Alcolumbre (União Brasil), presidente do Senado, para avaliar a tramitação da proposta e a possibilidade de construir um calendário conjunto para sua apreciação.

A eventual aprovação ainda em 2026 não significaria aplicação imediata do voto distrital misto. O cronograma anunciado prevê uma etapa de transição em 2030 e a implementação definitiva apenas em 2034, respeitando também as exigências constitucionais relacionadas à anterioridade eleitoral.

Com o apoio inicial de partidos de centro e a resistência das principais legendas de esquerda e direita, a reforma deverá ocupar espaço nas negociações do Congresso durante os últimos meses da atual legislatura. O resultado dessas articulações poderá definir as regras pelas quais os brasileiros escolherão seus representantes nas próximas décadas.