Aspasia Camargo: “A Odisseia de Homero – There’s no place like home!”
A trajetória de Ulysses inspira uma reflexão sobre o Brasil perdido entre crises, sem direção nacional, e sobre a necessidade de reconstruir um projeto de futuro.

Encontrar o caminho de casa: uma inspiração para o aggiornamento brasileiro
O Brasil possui governo, instituições e dirigentes, mas parece acéfalo porque lhe falta um comando legítimo, competente e orientado por uma missão nacional. É o Brasil sem Ulysses, sem o timoneiro, em plena tempestade. O mito é uma forma alegórica que os seres humanos inventaram para compreender melhor a si próprios, suas origens e sua experiência do mundo. Antes da História que se pretende científica, da sociologia e da psicologia, as sociedades condensaram em narrativas exemplares seus medos, desejos, proibições e conflitos, resumidos em algumas perguntas e respostas essenciais. Os mitos oferecem desafios a enfrentar, lições a aprender, exemplos a seguir e advertências a respeitar. Permanecem vivos porque as civilizações e as tecnologias se transformam, mas a ambição, o medo, a coragem, a vaidade, o desejo, a fidelidade, a traição e a luta pelo poder continuam a acompanhar os homens.
A recente volta da Odisseia ao cinema — em O Regresso, de Uberto Pasolini, centrado na etapa final da chegada de Ulysses a Ítaca, e na nova e controvertida versão de Christopher Nolan, que reconstrói o périplo do herói pelos mares — devolveu a força do personagem à imaginação contemporânea. O primeiro filme começa quando a aventura marítima termina e Ulysses chega, afinal, a Ítaca para enfrentar o confronto decisivo. Em A Odisseia, voltamos a singrar os mares com ele durante dez longos anos.
Os dois filmes despertam a mesma pergunta: o que nos oferece a trajetória de Ulysses para continuar ocupando, quase três mil anos depois, algumas das páginas mais belas da literatura universal e a imaginação futurista do século XXI?
A resposta talvez esteja no fato de que Ulysses está muito longe de ser um herói perfeito. Mesmo assim, é um herói. É inteligente, corajoso, persistente e inventivo, mas também vaidoso, imprudente, dissimulado e, muitas vezes, incapaz de exercer sobre seus homens a autoridade que sua missão exigia. Um personagem inteiramente virtuoso dificilmente sobreviveria a três mil anos de História. A grandeza de Ulysses nasce precisamente da tensão entre suas virtudes, seus defeitos e seus fracassos, oscilando entre a inteligência que o protege e os excessos que prolongam seu sofrimento e retardam seu regresso.
Os gregos legaram ao Ocidente uma percepção monumental e trágica da História. O progresso jamais se apresenta como marcha linear, garantida ou irreversível. É uma conquista permanente da espécie humana, dependente do acaso, dos erros e acertos, da grandeza e dos limites — mas também dos sentimentos de vingança, medo, arrogância, ironia e perda. Oscilamos entre o crime e o castigo, a generosidade e a culpa, a vitória e a derrota.
Um homem pode vencer Troia e naufragar no regresso; derrotar um monstro e, a seguir, comprometer a própria vitória pela vaidade de exibir seus feitos. Pode agir com inteligência e, ainda assim, pagar pelo excesso.
Os deuses exprimem em linguagem mítica essa realidade contraditória que escapa ao domínio humano. A História nasce do encontro entre vontade, circunstância, caráter e forças que excedem o cálculo dos homens. Como nos ensina Maquiavel, navegamos sempre entre a virtù, a capacidade humana de agir sobre o mundo, e a fortuna, a força imprevisível das circunstâncias. Entre o poder da vontade e os caprichos do destino.
A Guerra de Troia consumiu dez anos da vida de nosso herói. A cidade foi finalmente conquistada, saqueada e destruída. Mas e depois? A coalizão grega, tão unida enquanto enfrentava um inimigo comum, fragmentou-se quando chegou o momento de voltar para casa. Agamenon regressa a Micenas e encontra a morte dentro do próprio palácio, assassinado por Clitemnestra e Egisto. Menelau leva oito anos para reencontrar Esparta depois de recuperar Helena. Ulysses precisará de outra década para alcançar sua amada Ítaca.
A vitória em Troia testa a capacidade militar da conquista. O longo regresso exige perseverança e, sobretudo, capacidade política para liderar os soldados depois da vitória. Reunir forças para destruir uma ordem antiga pode ser bem mais simples do que obter coesão suficiente para construir o caminho de volta.
A palavra grega nóstos resume o sentido dessa segunda epopeia: o regresso. É a volta para casa, o retorno à pátria, que representa muito mais do que o lugar de origem. Ítaca é uma pequena ilha do mar Jônico, mas ali estão Penélope, sua mulher; Telêmaco, seu filho; o palácio, os antepassados, sua autoridade legítima e, sobretudo, sua memória e seu pertencimento. Ulysses atravessa o mundo para recuperar um reino modesto porque sabe que nenhuma extensão do mundo pode substituir aquilo que lhe confere identidade.
Como celebrou Dorothy em O Mágico de Oz, there’s no place like home: não há lugar como a nossa própria casa.
Quem navega sem rumo precisa encontrar a sua Ítaca — aquela que ele traz dentro de si.
E onde estão nossos sábios, dotados de discernimento? Também o Brasil parece ter perdido o caminho de casa. Estamos mergulhados numa crise que nunca termina e já não sabemos com clareza para onde queremos ir. Quem somos nós? Para onde vamos? Como Ulysses, precisamos consultar nossos mortos, reconhecer nossas conquistas e, a partir delas, reencontrar nossa Ítaca.
Uma primeira globalização nasce no Mediterrâneo
Há um personagem silencioso que domina toda a Odisseia: o mar. Para os gregos, o Mediterrâneo, o Egeu e o Jônico eram simultaneamente estrada, fronteira e ameaça. Pelo mar circulavam mercadorias, técnicas, ideias, deuses, exércitos e riquezas. Por ele se fundavam cidades, estabeleciam-se alianças e conheciam-se outros povos. Mas também pelo mar chegavam à guerra, a pilhagem, a escravidão, as tempestades e os invasores.
O mar conectava um mundo grego disperso em ilhas e cidades autônomas. Era uma primeira experiência de globalização. Era uma primeira experiência de globalização que atingiu seu apogeu na Idade do Bronze em XIV a.C, entrou em colapso e iria renascer na época de Homero no século VIII a.C. Navegar significava abandonar a segurança da terra firme e submeter-se a ventos, correntes, monstros, deuses e povos desconhecidos. Essa circulação de culturas e saberes contribuiu para a extraordinária inteligência grega no alvorecer da civilização ocidental.
O mar é, no entanto, o grande desconhecido. Perigoso. Traiçoeiro. Ulysses sabe onde deseja chegar, mas não governa o ritmo nem a direção da viagem. Não controla o espaço que precisa percorrer.
A globalização contemporânea continua a ser realizada, em grande parte, pelo mar. Ela comanda a circulação de mercadorias e o comércio, barateados pela revolução dos transportes e pela redução do tempo e do custo dos fretes. Ao mesmo tempo, os conhecimentos atravessam o mundo quase instantaneamente. A globalização transporta riqueza, tecnologia, oportunidades e intercâmbio, mas dissemina também crises financeiras, guerras, dependências produtivas, concorrência desleal e deslocamentos abruptos do poder. Como as primeiras ondas de globalização do passado, sua fragilidade reside na complexidade e interdependência que cria, mas não consegue proteger nem controlar.
Fechar-se ao mar significa isolamento. Entregar-se passivamente às suas correntes pode significar naufrágio. O Brasil participa de maneira incompleta e passiva das correntes mais dinâmicas da globalização. Falta-nos a ousadia dos antigos navegadores para conhecer, investigar, proteger e utilizar de forma sustentável o Atlântico Sul, impedindo a exploração predatória de suas riquezas e transformando-o em eixo de ciência, defesa, comércio e desenvolvimento. O Atlântico Sul é o nosso grande mar estratégico: caminho, fronteira, riqueza e risco.
Ítaca era uma pequena ilha do mar Jônico, inserida num universo dominado por forças muito superiores, como Micenas e Esparta, que comandaram a Guerra de Troia. O Brasil vive paradoxo semelhante em outra escala. É um grande território, rico em recursos e população, mas ainda relativamente modesto na constelação do poder econômico, tecnológico, financeiro e militar.
Não possuímos a escala dos Estados Unidos ou da China, mas tampouco devemos procurar imitá-los de maneira tímida e reduzida. Somos uma potência média, singular, dotada de imensas riquezas e possibilidades. Como Ulysses, precisamos de métis: inteligência estratégica, capacidade de adaptação, negociação, escolha e aproveitamento de nossas próprias vantagens.
Soberania não consiste em dominar o oceano. Consiste em saber atravessá-lo sem perder o caminho de Ítaca.
A difícil arte de liderar os subordinados
As primeiras provações do regresso revelam que o problema maior de Ulysses talvez não seja vencer inimigos, mas conduzir seus próprios soldados. Entre os Cícones, os guerreiros gregos saqueiam, comem, bebem e se entregam ao butim. Ulysses percebe o risco e ordena a retirada, mas seus homens permanecem celebrando a vitória até que os habitantes da cidade se reorganizam e contra-atacam. A guerra terminou, mas a lógica da guerra continua operando dentro dos guerreiros. Eles sabem conquistar, porém ainda não aprenderam a parar. A lição é afirmativa: Ulysses aprende que vencer exige agressividade, enquanto governar exige contenção. A liderança começa pela capacidade de interromper o movimento destrutivo quando o objetivo já foi alcançado.
Na terra dos Lotófagos, o perigo assume forma oposta. Quem prova o lótus perde o desejo de regressar. O fruto não mata o corpo; apaga a memória do destino. Seus homens prefeririam permanecer ali, mergulhados num esquecimento doce e sem futuro. Ulysses precisa arrastá-los de volta aos navios. Ali ele aprende que o líder não deve apenas mostrar o caminho. Precisa preservar no grupo a lembrança da razão pela qual a viagem começou. Uma missão desaparece quando seus integrantes deixam de desejar o destino.
Com Éolo, a situação é paradoxal e dramática. A confiança entre o líder e seus subordinados se rompe quando Ítaca já está visível e próxima. O senhor dos ventos entrega a Ulysses um saco que contém as correntes capazes de desviá-lo, deixando livre apenas o vento favorável. Depois de nove dias de navegação, exausto, Ulysses adormece. Seus homens suspeitam que o saco esconda ouro reservado ao chefe. Movidos pela cobiça e pela desconfiança, abrem-no e libertam os ventos que afastam novamente a embarcação. E, finalmente, ao desobedecer às ordens do chefe e comer por seis dias seguidos o rebanho de Hélio, o rei Sol, a tripulação de Ulysses foi condenada por Zeus ao extermínio.
A tragédia consiste em perder o destino quando ele já estava à vista. Ulysses aprende que a informação excessivamente concentrada no chefe alimenta suspeitas e ressentimentos. Um líder pode conhecer a direção correta e, ainda assim, fracassar quando não consegue transformar seu conhecimento em confiança compartilhada.
O navio torna-se um verdadeiro laboratório político. Nele aparecem autoridade e obediência, segredo e informação, interesse individual e objetivo coletivo, disciplina e revolta, fadiga, fome, inveja e medo.
É mais fácil derrotar um Ciclope do que governar uma tripulação. A responsabilidade pelo desastre pertence aos dois lados. Os marinheiros sucumbem à indisciplina, à cobiça, à desconfiança e aos apetites imediatos. Mas Ulysses também falha ao comunicar, educar, inspirar e exercer autoridade. Sua inteligência individual não se converte em disciplina coletiva. Parte com uma frota e regressa sozinho. Dez anos de sua vida foram absorvidos por uma guerra destruidora. Outros dez se perderam no mar, num regresso constantemente desviado pelas consequências da guerra, pela hostilidade dos deuses, pelos erros do próprio herói e pela insubordinação de seus homens. Quando finalmente chega a Ítaca, Ulysses está envelhecido, transformado e sem nenhum daqueles que deveria ter conduzido de volta. A primeira década ensinou-lhe a conquistar a casa do inimigo. A segunda ensinou-lhe, de forma muito mais dolorosa, a procurar e reconquistar a própria casa, ameaçada pelos invasores.
O Brasil possui governo, instituições e dirigentes, mas parece acéfalo porque lhe falta um comando legítimo, competente e orientado por uma missão nacional.
Suas instituições estão fragmentadas, divididas e frequentemente empenhadas em neutralizar umas às outras, quando deveriam cooperar em torno de objetivos comuns. O descrédito do governo se amplia, a corrupção dissemina-se pelas relações entre o Estado e os interesses privados, e as gastanças destinadas a vencer a próxima eleição substituem o planejamento capaz de preparar a próxima geração. Governa-se para prolongar o poder, e não para construir o futuro.
Nossas elites políticas, econômicas e intelectuais parecem ter ingressado num estado falimentar. Perderam a capacidade de formular um projeto nacional, educar o povo para objetivos compartilhados e oferecer exemplos que inspirem confiança. O povo, por sua vez, exausto de promessas descumpridas e sucessivas frustrações, mergulhou na apatia e já não encontra meios de reagir ou de se organizar em torno de uma alternativa.
Como no navio de Ulysses, a crise pertence ao comandante e à tripulação. Os dirigentes não sabem conduzir; as instituições não conseguem cooperar; as elites deixaram de orientar; e o povo, descrente, perdeu a disposição de seguir. Sem autoridade legítima, confiança e destino compartilhado, o movimento transforma-se em deriva.
Há 40 anos perambulamos de crise em crise, de esperança em frustração, corrigindo um fracasso com as causas do fracasso seguinte. Cuidamos mal de nossas riquezas, permitimos a deterioração do patrimônio construído por gerações e desperdiçamos oportunidades históricas. Ulysses perdeu vinte anos antes de reencontrar Ítaca; nós já perdemos quarenta, presos num redemoinho que produz movimento sem direção, gastos sem desenvolvimento e eleições sem futuro.
A doença da hýbris: a vaidade soberba
O confronto com Polifemo consagra a inteligência de Ulysses. O Ciclope é um gigante de um olho só que aprisiona os gregos em sua caverna e devora alguns deles, contrariando a prática da hospitalidade. Ulysses não dispõe de força física para enfrentá-lo. Precisa observar, calcular, enganar e escolher o momento certo. É a métis: a inteligência prática, flexível e adaptativa, capaz de transformar vulnerabilidade em vantagem. Ulysses embriaga o gigante, apresenta-se como “Ninguém” para confundir o gigante e seus aliados próximos, cega seu único olho e escapa escondido sob os animais do rebanho. O homem pequeno vence porque pensa melhor.
Homero antecipa aqui o dilema que Maquiavel apresentaria muitos séculos depois. Polifemo é o leão: possui a força, o rugido e a capacidade de destruir. Ulysses é a raposa: reconhece as armadilhas, dissimula, contorna e escolhe o instante de agir. Mas a Odisseia introduz um terceiro elemento, mais perigoso do que a força ou a astúcia: a hýbris, a soberba que infla o poder, deforma a percepção da realidade e faz o homem acreditar numa imagem exagerada de si próprio.
Depois de escapar, Ulysses poderia desaparecer silenciosamente. Entretanto, dominado pela vaidade, proclama seu nome aos ventos e reivindica aos brados autoria da vitória. Diz quem ele é, de quem é filho e onde mora. Polifemo descobre quem o derrotou e pede a Poseidon que vingue sua cegueira e humilhação.
A métis conquistou a vitória; a hýbris começou a destruí-la.
Ulysses aprende que a arrogância não pode vencer a inteligência que tornou possível a vitória. O poder que perde a consciência dos limites fabrica a força que acabará por contê-lo. A força sem inteligência é cega. A inteligência sem medida pode converter-se em arrogância. E a arrogância é o começo da derrota. A hýbris de Ulysses também pode ser lida à luz de sua vitória em Troia. O Cavalo foi a realização suprema da métis: aquilo que dez anos de combate não haviam conseguido, a inteligência alcançou por meio do engano. Mas a vitória permitiu a destruição de uma cidade inteira. A mesma façanha foi heroica para os vencedores e devastadora para os vencidos.
Um país que não possui a escala dos gigantes precisa, mais do que qualquer outro, de inteligência estratégica, capacidade de escolha e competência para negociar. A grandeza proclamada pode ser apenas hýbris. A verdadeira grandeza está em saber o que fazer com aquilo que se possui.
Homero não apresenta diretamente Ulysses como um homem esmagado pela culpa, mas a epopeia permite uma interpretação inquietante. Teria o destruidor de Troia perdido o caminho de casa porque ainda carregava a guerra dentro de si? Seria preciso perambular por tanto tempo para compreender o preço moral de sua vitória?
Talvez o regresso se prolongue porque Ulysses precisa deixar de ser apenas o homem que sabe vencer. Precisa tornar-se alguém capaz de reconhecer perdas, aceitar limites, preservar vínculos e reconstruir a própria casa.
Os deuses do Olimpo acompanham o herói
Acima de Ulysses, de seus inimigos e de suas próprias escolhas estão os deuses. Eles não anulam a responsabilidade humana, mas delimitam o campo no qual os homens conseguem agir. Afrodite protege Paris e Helena; Hera e Atena apoiam os gregos em sua ofensiva contra Troia.
Atena e Poseidon já haviam disputado o domínio de Atenas: ele oferecera a força do mar; ela, a oliveira, a técnica e a inteligência civilizadora. Na Odisseia, essa antiga tensão reaparece em torno de Ulysses. Poseidon transforma o mar em obstáculo para vingar a cegueira e a humilhação de seu filho Polifemo. Atena evita confrontá-lo diretamente, mas preserva o caminho de Ítaca. Ela pode proteger o herói, porém não apagar a ira do deus do mar.
Quem acompanha e orienta a Odisseia é Atena, a deusa guerreira que encarna a sabedoria e protege Ulysses. A afinidade entre ambos nasce da inteligência estratégica que representam. É com ela que o herói contará na viagem de volta, acossado pela vingança de Poseidon. Zeus, soberano, permanece como instância superior que determina os limites do destino.
Ulysses pode cegar Polifemo, resistir às Sereias e recuperar o palácio, mas não pode ordenar ao mar que se acalme. Os homens fazem escolhas; os deuses lembram-lhes que eles não são deuses.
A figura bíblica de Moisés oferece uma travessia semelhante. Também ele conduz seu povo em direção à Terra Prometida. Também enfrenta rebeliões, cansaço, desconfiança e perda de finalidade. E também falha diante dos limites: no episódio da rocha, sua impaciência e sua desobediência à ordem superior impedem-no de completar pessoalmente a missão.
Ulysses regressa depois de perder seus homens; Moisés conduz seu povo, mas morre antes de atravessar a última fronteira. Ambos ensinam que nem mesmo os maiores
líderes permanecem acima das exigências de sua missão. A grandeza não cancela responsabilidades; torna-as ainda maiores.
No Brasil, durante décadas repetimos, com humor e autoconfiança, que “Deus é brasileiro”. A abundância de território, água, alimentos, minerais, biodiversidade e energia parecia garantir-nos um destino dadivoso. Diante do prolongado declínio, podemos perguntar se Deus nos abandonou. Talvez Deus ainda seja brasileiro. O problema é saber se os dirigentes e o povo brasileiro continuam cooperando com Ele.
A sabedoria das mulheres de Homero
A viagem épica de Ulysses é também uma consagração do poder das mulheres. Elas não pegam em armas, mas guardam formas de conhecimento e sutilezas que o bravo guerreiro desconhece.
Atena representa a inteligência estratégica que o acompanha o tempo todo. Circe revela a magia e a percepção das forças ocultas que lhe abrem as portas de Hades e da memória coletiva. As Sereias encarnam a tentação do desejo inconsciente. Calipso oferece a sedução sensual de um presente que não possui futuro. Nausícaa representa a hospitalidade sagrada. Penélope preserva a casa, o tempo e a continuidade familiar e afetiva.
Penélope é a rainha. Na epopeia, rivaliza com Ulysses como personagem inigualável. É a mulher persistente e resoluta que representa a memória da casa, a fidelidade do casal e a resistência de uma Ítaca que sobrevive graças a ela durante a ausência do rei, assaltada por aventureiros que cobiçam o reino, a rainha e suas riquezas.
Ela é a métis feminina da Odisseia: a mulher sábia cujo ardil consiste em desfazer durante a noite o tecido produzido durante o dia, adiando o casamento indesejado. No momento decisivo, sob a influência de Atena, Penélope anuncia a prova do arco: uma nova prova de métis que nenhum dos pretendentes consegue vencer e que somente Ulysses será capaz de realizar.
Penélope representa a inteligência feminina e a continuidade do poder familiar, tão importante na cultura grega. Ela governou Ítaca por 20 anos. É a deusa que reina fora do Olimpo. Essa dimensão encontrou expressão particularmente feliz na Penélope madura, serena e dolorosa de Juliette Binoche em O Regresso.
Circe aparece inicialmente como ameaça. Recebe os companheiros de Ulysses e os transforma em porcos, imagem poderosa da animalidade à qual homens embrutecidos pela guerra podem regressar. Protegido por Hermes, Ulysses resiste ao encantamento e transforma a adversária em aliada e conselheira.
Ali ele aprende que nem todo poder pode ser derrotado pela força. Alguns poderes precisam ser compreendidos, negociados e convertidos em orientação espiritual e intuitiva para encontrar a saída.
A feiticeira educa o guerreiro racional.
Tirésias no reino de Hades
É Circe quem indica a missão de descer ao mundo dos mortos, o reino de Hades, para mergulhar na memória daqueles que já atravessaram os limites da existência. Entre eles, Ulysses procura Tirésias, o célebre profeta cego de Tebas.
Cego entre os vivos, Tirésias torna-se visionário entre os mortos. Aquele que não enxergava o mundo visível era capaz de compreender o que permanecia oculto aos demais.
A imagem aproxima a Odisseia de outra grande obra da cultura grega: Antígona, de Sófocles, que desafia o poder da cidade para prestar ao irmão morto os ritos que considera sagrados. Ela sabe que nenhuma sociedade permanece humana quando rompe os vínculos entre vivos e mortos. Circe e Antígona reconhecem, cada uma à sua maneira, que os mortos continuam a exigir memória, cuidado e homenagem.
Tirésias ensina a Ulysses que ver não significa apenas possuir olhos. Significa reconhecer o sentido dos acontecimentos, antecipar consequências e aceitar limites. Ele anuncia que Ulysses chegará a Ítaca incólume, mas adverte-o dos perigos que ainda enfrentará. Seus homens deverão respeitar o rebanho sagrado de Hélio. Caso contrário, todos perecerão, e o herói voltará sozinho, depois de sofrer longamente. Em Ítaca, encontrará a casa ocupada e precisará punir os pretendentes. O regresso será possível, mas exigirá contenção, respeito ao que é sagrado e, por fim, reconciliação com Poseidon.
Também o Brasil precisa consultar os seus mortos e sua sabedoria. Mauá, Roberto Simonsen, Celso Furtado, Hélio Jaguaribe, Ignácio Rangel, Rômulo de Almeida, Eliezer Batista e tantos outros não devem repetir respostas concebidas em outro tempo, mas ajudar-nos a enfrentar uma pergunta decisiva: o que vocês nos ensinaram que ainda não compreendemos? A memória somente permanece viva quando se transforma em alavanca para inventar o futuro.
O canto das Sereias
O encontro com as Sereias é uma das experiências mais tentadoras e inesquecíveis da viagem porque seu poder se exerce diretamente sobre os ouvidos e a imaginação. Como Homero, o poeta cego, seu instrumento de trabalho é o canto, de efeitos letárgicos, paralisantes, evocativos. Elas não seduzem apenas pela beleza da música. Seu canto traz à superfície os desejos mais profundos, secretos e inconscientes daquele que o escuta: ambições reprimidas, nostalgias, fantasias de plenitude, promessas de conhecimento e prazeres que a consciência procurava manter escondidos.
As Sereias provocam inicialmente o prazer da revelação. Dizem à vítima aquilo que ela mais teme, mas que deseja ouvir. O homem reconhece no canto aquilo que talvez jamais tivesse coragem de confessar a si próprio.
A sedução torna-se ainda mais cruel porque, depois de despertar o desejo, as Sereias tornam impossível sua realização. O sofrimento já não nasce apenas da falta, mas da consciência dolorosa daquilo que se deseja e não se pode alcançar. Um desejo oculto pode permanecer silencioso; um desejo revelado e condenado à frustração transforma-se em tormento.
Homero antecipa, em linguagem mítica, aquilo que Freud viria a desvendar com a descoberta do inconsciente. Os desejos reprimidos não desaparecem. Permanecem ativos nas regiões subterrâneas da personalidade e regressam por meio dos sonhos, dos sintomas, das fantasias e dos impulsos. Torná-los conscientes pode ser libertador, mas também profundamente doloroso, porque obriga o indivíduo a reconhecer forças interiores, desejos insatisfeitos que preferiria ignorar. É Freud na veia de Homero.
Ulysses deseja escutar. Não pretende permanecer surdo ao que o canto poderá revelar sobre si próprio e o massacre que ele perpetrou em Troia. Mas sabe que, uma vez despertados seus desejos, talvez já não consiga governá-los.
Circe o previne. Contra Polifemo, o herói havia identificado a fraqueza do adversário; diante das Sereias, precisa reconhecer a própria. Ordena que seus homens tapem os ouvidos com cera e que o amarrem firmemente ao mastro. Mesmo que implore para ser libertado, deverão apertar ainda mais as cordas.
Ulysses aprende que conhecer racionalmente um perigo não garante a capacidade de resistir a ele. É necessário criar antecipadamente uma regra que contenha sua própria vontade.
Surge aí uma das mais poderosas metáforas aplicáveis às instituições: regras de contenção que limitam a ganância, os apetites indevidos e a ambição do poder que concentra decisões em benefício próprio. Constituições, separação de poderes, regras estáveis e limites ao governante funcionam como o mastro de Ulysses. O mastro não é inimigo da liberdade. É aquilo que permite a Ulysses sobreviver à própria liberdade.
Também conhecemos, nós, brasileiros, o canto das soluções superficiais e fáceis que não vingam. Elas se multiplicam para atender aos interesses individuais e imediatos, raramente para garantir o futuro. Faltam-nos, muitas vezes, o mastro e as cordas: instituições capazes de conter a ganância, limitar os excessos do poder e proteger o país contra suas próprias tentações.
Depois da tentação das Sereias, a viagem se torna ainda mais dolorosa. Entre Cila e Caríbdis, Ulysses precisa escolher o mal menor e aceitar perdas inevitáveis. Caríbdis é o redemoinho que arrasta os navegantes para o fundo de poço e os devolve cada vez mais enfraquecidos três vezes por dia. A armadilha de Caríbdis é a fatalidade a que parecem condenados o Brasil e os brasileiros. Como escapar, mas sem cair nos braços de Cila, monstro marinho e antropófaga devoradora de homens?
Mais tarde, seus homens, dominados pela fome e pela desobediência, sacrificam o rebanho sagrado de Hélio. A advertência de Tirésias se cumpre. Todos morrem. Ulysses fica sozinho.
Entre o prazer eterno e a continuidade da vida
Calipso oferece a Ulysses uma forma diferente e talvez ainda mais ameaçadora de perigo. Durante sete longos anos, ele permanece em sua ilha. Ali encontra beleza, sensualidade, proteção, alimento e a possibilidade de escapar da velhice e da morte. Não existe a violência de Polifemo nem o perigo dos rochedos. O risco é mais suave: a embriaguez do esquecimento. Esquecer Ítaca num presente eterno de prazer e conforto. Calipso oferece a eternidade do prazer. Penélope preserva um amor que vem do passado, resiste no presente e ainda pode continuar no futuro.
Calipso representa o poder sensual e atemporal. Penélope representa a continuidade familiar. Durante vinte anos, preserva a casa, protege o filho, administra as pressões dos pretendentes e mantém viva a possibilidade do regresso.
Enquanto Ulysses percorre o espaço, Penélope governa o tempo. Sua fidelidade não é passiva. É esperta. Ela negocia, adia, tece, desfaz e impede que a ocupação da casa se transforme em ordem legítima.
Ulysses aprende que o prazer eterno do presente não consegue substituir uma vida que possui memória e continuidade. Escolhe envelhecer, reencontrar o filho, recuperar a casa e reassumir responsabilidades. Prefere uma existência mortal carregada de história a uma eternidade sem pertencimento.
Como Dorothy em O mágico de Oz, Ulysses percorre mundos extraordinários para descobrir, afinal, que there’s no place like home.
Também no Brasil a gratificação imediata e a sensualidade fácil prosperam com o enfraquecimento da continuidade familiar. Ao mesmo tempo, as igrejas evangélicas reafirmam o valor da família, da fidelidade e da responsabilidade entre as gerações. A questão ultrapassa a moral privada: alguém precisa criar as crianças, proteger os idosos, transmitir a memória e preservar vínculos num mundo cada vez mais fragmentado e hostil.
As mulheres continuam a realizar grande parte desse trabalho e, no entanto, continuam afastadas das cúpulas efetivas do poder. Avançaram na educação, nas profissões, na medicina, no Judiciário e no serviço público, mas permanecem menos presentes nos lugares em que as grandes decisões políticas e econômicas são tomadas.
A Odisseia, nascida numa sociedade patriarcal e guerreira, reconhece paradoxalmente uma verdade que o mundo moderno ainda reluta em aceitar: as mulheres sabem comandar em situação de vacância ou emergência e existe poder em preservar, cuidar, esperar, intuir, negociar e administrar o tempo.
Ulysses jamais chegaria a Ítaca sem Atena, Circe, Calipso e Nausícaa. E de nada adiantaria chegar se Penélope não tivesse preservado Ítaca.
A xenía da hospitalidade e a reconstrução da confiança
Depois de perder os últimos companheiros, Ulysses alcança a terra dos Feácios nu, exausto e sem os sinais exteriores da realeza. Nausícaa encontra um homem reduzido à vulnerabilidade mais elementar e o acolhe antes de saber quem ele é.
Esse gesto revela o sentido da xenía, a hospitalidade sagrada. No universo homérico, a civilização distingue-se da barbárie pela maneira como recebe o estrangeiro indefeso. Polifemo viola a xenía ao devorar seus hóspedes; Nausícaa e os Feácios a realizam ao proteger, alimentar, ouvir e transportar o náufrago. A dignidade do estrangeiro não depende de sua importância.
A hospitalidade não deve ser entendida apenas como gentileza pessoal: é o princípio universal da generosidade, dos vínculos que exigem instituições de acolhimento: lugares capazes de receber o recém-chegado, proteger o vulnerável, integrar o estrangeiro e transformar o desconhecido em hóspede antes de tratá-lo como ameaça.
No Brasil, todos parecem desconfiar de todos. Desconfiamos do Estado, dos dirigentes, das instituições e uns dos outros. O medo tornou-se uma forma negativa de coesão: talvez seja o sentimento que mais compartilhamos. Reaprender a hospitalidade significa reconstruir abrigos, relações e instituições nas quais o desconhecido possa deixar de ser imediatamente percebido como inimigo.
Ninguém chega sozinho ao seu destino. Ulysses, que tanto confiou na própria inteligência, realiza a última travessia adormecido, transportado pelos navios dos Feácios. Aprende, enfim, que também é possível depender da competência, da generosidade e da lealdade alheias.
Os feácios, inovadores da navegação, ocupam nove cantos dos vinte e quatro em que se desenvolve a Odisseia. Por que será? A civilização grega faz uma aposta na filosofia, na ciência e nas artes, na sabedoria. Mas exalta o saber prático, artesanal, tecnológico, produtivo.
Será que nós, brasileiros, já aprendemos esta lição fundamental?
A vitória exige a força e a métis
Quando Ulysses finalmente chega a Ítaca, já sabe que sua casa não é aquela que deixou. Os pretendentes instalaram-se no palácio, consomem seus bens, pressionam Penélope, ameaçam Telêmaco e agem como se a longa ausência do rei lhes tivesse transferido o direito de apropriar-se de tudo. O problema já não consiste apenas em encontrar o caminho de casa. É preciso derrotar os invasores, retomar o poder e reconstruir a ordem.
Atena produz então a última grande inversão da epopeia. O homem que partiu como rei regressa disfarçado de mendigo. Ulysses observa antes de agir, suporta humilhações, identifica aliados e adversários, reencontra Telêmaco e reconstrói seu pequeno grupo de resistência. A força permanece contida até que a inteligência prepare o momento adequado.
Na prova do arco anunciada por Penélope, os pretendentes ocupam o palácio, mas não conseguem manejar a arma do rei. Possuem o espaço do poder, mas não a competência necessária para exercê-lo. O mendigo é o único capaz de armar o arco e acertar o alvo, revelando, afinal, quem é.
Existe uma simetria magnífica entre o começo e o fim da epopeia. Em Troia, Ulysses esconde guerreiros dentro de um cavalo para conquistar a casa do inimigo. Em Ítaca, esconde o rei dentro de um mendigo para reconquistar a própria casa. Troia: conquistar a casa do outro. Ítaca: reconquistar a própria casa.
Também a nossa casa foi ocupada por interesses que se alimentam de sua fraqueza. Mas o Brasil que desejamos reencontrar já não existe. Nosso nóstos jamais poderá ser uma restauração. Terá de ser uma reconstrução.
O antigo Brasil desenvolvimentista pertence ao passado. Mudaram a tecnologia, a economia, a globalização, o clima, a demografia, a guerra, o trabalho e a relação entre as grandes potências. Voltar para casa não significa restaurar o passado, mas reencontrar aquilo que, no passado, ainda possui capacidade de produzir futuro.
Onde está o nosso Ulysses?
Talvez essa seja uma pergunta incompleta. Ulysses só regressa porque Atena o protege, Circe o orienta, Nausícaa o acolhe, os feácios o transportam, Telêmaco amadurece e Penélope preserva a casa. As grandes lideranças surgem quando uma sociedade ainda conserva algo digno de ser reconstruído e reúne vontade suficiente para fazê-lo.
A última missão: a reconciliação com Poseidon
Nem mesmo a reconquista de Ítaca encerra inteiramente o nóstos. Tirésias havia anunciado uma última missão. Depois de punir os pretendentes e restabelecer a ordem em sua casa, Ulysses deverá tomar um remo e caminhar para o interior, até encontrar homens tão distantes do mar que confundam aquele instrumento com uma pá de joeirar. Ali deverá fincar o remo na terra e oferecer sacrifícios a Poseidon.
Atena, por sua vez, exige de Ulysses que ele não se vingue dos filhos e parentes de seus inimigos. Precisa negociar, conciliar. Restabelecer a paz. A imagem é extraordinária. Ulysses não encerra sua missão apenas como vencedor. Precisa ser generoso, acolher os inimigos e reconciliar-se com uma ordem superior de convivialidade.
O herói que atravessou o mar deverá carregar o remo para longe dele. O instrumento da viagem será fincado na terra, levando simbolicamente a presença de Poseidon até um mundo que desconhecia o mar. Ulysses aprende, por fim, que triunfar não basta. É preciso reparar, agradecer, reconciliar e pacificar.
A métis permite concluir a viagem. Somente a humildade permite chegar, finalmente, ao seu destino.
Também nós, brasileiros, precisamos exercer a arte da reconciliação, primeiro com os deuses que desafiamos ou desprezamos durante nossa longa perambulação: com o princípio de realidade, a aceitação dos limites, a memória, a natureza, o trabalho, a competência e a confiança. Reconstruir a casa exige reconhecer os erros cometidos. Reparar o patrimônio dilapidado e refazer os vínculos rompidos entre o país, seu povo e seu futuro.
O Brasil perdeu parte de seu caminho e deixou de proteger aquilo que era seu. Seu nóstos começará quando voltar a reconhecer a própria casa — não como era, mas como poderá vir a ser.
Ulysses perdeu vinte anos para reencontrar Ítaca. O Brasil já perdeu quarenta procurando em vão o caminho de casa.
Ainda sabemos onde fica a nossa Ítaca?