Partidos que apoiaram Flávio elegem 286 deputados, mais que o dobro dos aliados de Lula
Levantamento revela vantagem das legendas que apoiaram o candidato do PL e mostra que Lula dependerá de negociações com o centro para formar maioria na Câmara.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) iniciará seu quarto mandato diante de um Congresso Nacional em que os partidos que apoiaram seu adversário nas eleições presidenciais conquistaram uma ampla vantagem numérica. Levantamento publicado pelo Metrópoles nesta terça-feira (3) mostra que as legendas que declararam apoio a Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno elegeram 286 deputados federais, enquanto as siglas alinhadas à candidatura de Lula conquistaram 124 cadeiras.
A diferença de 162 parlamentares evidencia o desafio que o governo enfrentará para construir maiorias na Câmara dos Deputados a partir de fevereiro de 2027. Os partidos que apoiaram Flávio representam 55,8% das 513 vagas da Casa, enquanto as legendas que defenderam a reeleição de Lula correspondem a 24,2%.
Outros 103 deputados, equivalentes a 20,1% da Câmara, foram eleitos por partidos que permaneceram neutros, liberaram seus integrantes ou não adotaram um posicionamento nacional unificado durante o segundo turno presidencial.
O levantamento considera os resultados das eleições legislativas de 4 de outubro, divulgados pela Justiça Eleitoral, e os apoios declarados pelas direções nacionais dos partidos na disputa presidencial de 25 de outubro. Como os deputados foram eleitos antes da definição de parte dessas alianças, os números não representam necessariamente a futura base parlamentar do governo nem uma divisão automática entre situação e oposição.
A maior bancada da próxima legislatura será a do PL, que conquistou 121 cadeiras. O partido de Flávio Bolsonaro ampliou sua representação em relação às eleições anteriores e terá participação expressiva nas negociações sobre a composição das comissões, a escolha das lideranças e a definição da agenda legislativa.
Entre os partidos que apoiaram o candidato derrotado também estão União Brasil e PP, reunidos na federação União Progressista, com 87 deputados eleitos. O Republicanos conquistou 41 cadeiras, o Podemos terá 27 representantes e o Novo contará com dez.
Somadas, essas legendas ultrapassam o número de 257 deputados necessário para formar maioria absoluta na Câmara. Isso não significa, entretanto, que seus integrantes votarão de maneira coordenada, já que parte dos parlamentares mantém relações políticas e administrativas com o governo federal.
Do lado de Lula, a maior representação será da Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, que elegeu 88 deputados. O PSB conquistou 15 vagas, mesmo número obtido pela federação PSOL e Rede. O PDT completará o grupo com seis parlamentares.
As quatro bancadas somam 124 deputados, quantidade insuficiente para garantir, sem negociações com outras legendas, a aprovação de projetos que exijam maioria absoluta ou quóruns mais elevados.
O terceiro grupo, formado por partidos sem apoio presidencial nacional unificado, também terá importância na organização da próxima legislatura. O PSD elegeu 43 deputados, seguido pelo MDB, com 36, e pela federação PSDB e Cidadania, com 11 representantes.
A federação PRD e Solidariedade conquistou sete cadeiras, o Avante terá cinco deputados e o Missão contará com um parlamentar.
Essas legendas reúnem 103 cadeiras e poderão participar de diferentes composições políticas ao longo do mandato. As negociações envolverão tanto a escolha da Mesa Diretora quanto a tramitação de propostas relacionadas à economia, segurança pública, políticas sociais e reformas institucionais.
A diferença entre o apoio eleitoral dos partidos e a atuação de seus parlamentares já ficou evidente nas primeiras articulações depois do segundo turno.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), pertence a uma legenda que declarou apoio a Flávio Bolsonaro, mas participou da campanha pela reeleição de Lula. No dia 26 de outubro, um dia após o resultado presidencial, Motta esteve no Palácio da Alvorada para uma reunião com o presidente reeleito.
O encontro também contou com a presença do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), cuja legenda igualmente apoiou Flávio no segundo turno. Ambos reafirmaram a disposição de manter o diálogo institucional entre o Congresso Nacional e o Poder Executivo.
Motta e Alcolumbre buscam permanecer no comando de suas respectivas Casas na eleição prevista para 1º de fevereiro de 2027. A disputa se tornou um dos principais pontos de convergência entre o governo e dirigentes de partidos que não integraram a campanha presidencial petista.
Na Câmara, a Federação Brasil da Esperança, formada por PT, PCdoB e PV, anunciou apoio à recondução de Hugo Motta. A decisão foi tomada em 27 de outubro, com o argumento de que a manutenção do atual presidente poderá contribuir para as condições de governabilidade no próximo mandato.
PSB e PDT também declararam apoio ao parlamentar. Antes disso, partidos como União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e Podemos já haviam iniciado articulações conjuntas sobre a próxima composição da Mesa Diretora.
O movimento demonstra que as alianças construídas durante a campanha presidencial não necessariamente serão reproduzidas nas votações do Congresso. A formação de maiorias dependerá das posições de cada bancada, dos interesses regionais e dos acordos firmados em torno das propostas em discussão.
No Senado, a disputa pelo comando da Casa apresenta outro cenário. O PL terá 29 dos 81 senadores a partir de 2027, consolidando a maior bancada partidária. Flávio Bolsonaro já anunciou apoio à candidatura de Rogério Marinho (PL-RN), coordenador de sua campanha presidencial, para enfrentar a tentativa de recondução de Alcolumbre.
A disputa deverá envolver negociações com partidos de centro e parlamentares que não integram diretamente as bancadas alinhadas ao governo ou ao bolsonarismo.
Para Lula, o desafio será obter apoio suficiente para aprovar medidas consideradas prioritárias sem contar com uma maioria partidária previamente estabelecida. A situação também coloca em evidência a importância de acordos com as direções do PSD, MDB, União Brasil, PP, Republicanos e outras legendas que possuem participação expressiva no Congresso.
A aprovação de projetos de lei ordinária dependerá das maiorias exigidas em cada votação. Já propostas de emenda à Constituição exigirão pelo menos 308 votos favoráveis na Câmara, em dois turnos, tornando indispensável a participação de parlamentares de diferentes campos políticos.
O resultado das eleições legislativas também terá consequências sobre a distribuição dos espaços de influência no Congresso. O PL terá condições de reivindicar maior participação nas comissões e nas relatorias, enquanto o governo buscará preservar canais de negociação com parlamentares que não participaram de sua campanha presidencial.
A composição definitiva das bancadas ainda poderá sofrer alterações até a posse, em razão de mudanças partidárias permitidas pela legislação e da eventual convocação de suplentes.
Os números divulgados pelo Metrópoles, entretanto, já indicam a dimensão das negociações que marcarão o início de 2027. Embora Lula tenha conquistado a reeleição presidencial, as legendas que apoiaram Flávio Bolsonaro elegeram mais que o dobro dos deputados vinculados aos partidos que defenderam sua permanência no Palácio do Planalto.
A formação da próxima maioria parlamentar dependerá, portanto, de entendimentos construídos depois das eleições, especialmente com partidos de centro que mantêm interlocução com diferentes forças políticas.