Centrão pressiona Lula por ministérios e quer tirar do PT o controle da articulação política
Partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro negociam espaço no quarto governo Lula e disputam cargos estratégicos para ampliar sua influência no Congresso.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta uma nova disputa pela composição de seu quarto governo, que terá início em janeiro de 2027. Partidos do Centrão articulam a ampliação de sua presença na Esplanada dos Ministérios e defendem a redução do espaço ocupado pelo PT na articulação política do Palácio do Planalto. A movimentação reúne legendas que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais e que agora discutem uma aproximação com o governo reeleito.
Segundo reportagem de O Globo divulgada nesta terça-feira (3), dirigentes e parlamentares de União Brasil, PP, Republicanos, MDB e PSD avaliam alternativas para participar da nova administração federal. Entre as reivindicações está a possibilidade de assumir o Ministério das Relações Institucionais, responsável pelo relacionamento do Executivo com o Congresso Nacional.
A pasta é atualmente comandada por José Guimarães (PT) e integra uma estrutura política que permanece sob influência do partido do presidente. Além das Relações Institucionais e da Casa Civil, o PT ocupa as lideranças do governo na Câmara dos Deputados, no Senado e no Congresso Nacional.
Integrantes do Centrão defendem uma distribuição mais ampla dessas funções, argumentando que o novo mandato dependerá de acordos com partidos que não participaram da campanha pela reeleição de Lula. A proposta, entretanto, encontra resistência entre dirigentes petistas e auxiliares do presidente, que consideram a articulação política uma área estratégica da administração federal.
O líder do Republicanos na Câmara, Augusto Coutinho (Republicanos), afirmou ao jornal O Globo que o futuro governo precisará ampliar sua composição para além do PT. O parlamentar avaliou que a concentração das funções políticas no partido presidencial dificultou a relação com outras legendas durante o terceiro mandato, mas reconheceu que as negociações para 2027 ainda não começaram formalmente.
A movimentação ganhou importância após o resultado das eleições legislativas de outubro. O PL conquistou 121 cadeiras na Câmara dos Deputados, ampliando em 24 parlamentares sua representação. No Senado, o partido de Flávio Bolsonaro terá 29 dos 81 integrantes a partir de fevereiro de 2027.
O PT, por sua vez, contará com 70 deputados federais, número insuficiente para garantir sozinho a aprovação das propostas do governo. A necessidade de construir maiorias parlamentares coloca partidos de centro em posição relevante nas negociações sobre a próxima composição ministerial.
Embora União Brasil, PP e Republicanos tenham declarado apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, integrantes dessas legendas mantiveram relações políticas com Lula durante a campanha. Parlamentares como Aguinaldo Ribeiro (PP) e Silvio Costa Filho (Republicanos) apoiaram a reeleição do presidente, apesar da orientação adotada pelas direções nacionais de seus partidos.
No caso do MDB e do PSD, as legendas não assumiram apoio presidencial nacional unificado e permitiram que seus integrantes adotassem posições diferentes conforme as alianças regionais.
O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab (PSD), confirmou que representantes do governo procuraram o partido para tratar do próximo mandato. Em entrevista à newsletter Jogo Político, de O Globo, Kassab defendeu uma ampliação da base de apoio de Lula e afirmou que o presidente precisará melhorar sua capacidade de diálogo com outras forças políticas.
O PSD possui representação expressiva na Câmara e no Senado e poderá participar tanto das negociações ministeriais quanto das articulações para a escolha dos novos dirigentes do Congresso.
Entre os nomes mencionados para assumir o Ministério das Relações Institucionais está o deputado Silvio Costa Filho (Republicanos), que comandou o Ministério de Portos e Aeroportos durante o terceiro governo Lula e atualmente exerce a liderança da maioria na Câmara.
Próximo do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), Silvio é apontado por interlocutores do Centrão como uma alternativa para melhorar a interlocução entre o Executivo e os parlamentares. Sua eventual indicação, porém, dependerá de entendimento com o presidente e com a direção nacional do partido.
A possibilidade também enfrenta resistência dentro do Palácio do Planalto. Segundo informações publicadas anteriormente pelo Metrópoles, auxiliares de Lula defendem que o Ministério das Relações Institucionais permaneça sob comando petista, principalmente pela participação da pasta nas negociações sobre emendas parlamentares e na organização da agenda legislativa do governo.
Outras legendas também articulam possíveis indicações. No PP, parlamentares defendem a participação de Aguinaldo Ribeiro na nova Esplanada. A sigla já havia indicado André Fufuca para o Ministério do Esporte no terceiro mandato, mas o parlamentar foi eleito senador em outubro e ainda não definiu se permanecerá no Legislativo ou aceitará uma eventual função no Executivo.
No União Brasil, os deputados Moses Rodrigues (União Brasil) e Pedro Lucas Fernandes (União Brasil) aparecem entre os nomes que buscam apoio interno para possíveis indicações ministeriais.
Além dos cargos diretamente relacionados à articulação política, parte das legendas demonstra interesse em ministérios com maior capacidade de execução de obras e investimentos. Pastas como Cidades e Integração e Desenvolvimento Regional estão entre as áreas consideradas relevantes nas conversas.
A disputa também envolve as lideranças governistas no Congresso. Diante do crescimento da oposição no Senado, integrantes do Palácio do Planalto avaliam a necessidade de manter parlamentares experientes em posições de negociação dentro da Casa.
Uma das possibilidades mencionadas é a indicação do senador Renan Filho (MDB), ex-ministro dos Transportes, para a liderança do governo no Senado. A alternativa permitiria que o parlamentar permanecesse exercendo o mandato, em vez de retornar à Esplanada.
A preocupação dos governistas está relacionada à possibilidade de senadores assumirem ministérios e serem substituídos por suplentes com menor influência nas negociações parlamentares. A estratégia em discussão busca preservar a interlocução política em uma Casa na qual o PL ampliou sua presença.
Renan Filho e Silvio Costa Filho, entretanto, informaram a aliados que não existem definições sobre os cargos mencionados. Qualquer indicação dependerá de negociações entre Lula e as direções partidárias.
As articulações sobre a composição do governo também estão diretamente relacionadas à disputa pelos comandos da Câmara e do Senado. Lula trabalha pela recondução de Hugo Motta e Davi Alcolumbre (União Brasil), presidentes das duas Casas e integrantes de partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro durante a eleição presidencial.
Os dois parlamentares se reuniram com o presidente reeleito no Palácio da Alvorada em 26 de outubro, um dia depois do segundo turno. O encontro abriu espaço para conversas sobre a relação institucional entre o próximo governo e o Congresso.
Apesar das movimentações, integrantes do governo afirmam que a negociação efetiva dos ministérios ainda não foi iniciada. A prioridade de Lula continua sendo a definição do comando da equipe econômica, considerada uma das decisões mais importantes para estabelecer as diretrizes do próximo mandato.
O atual ministro da Fazenda, Dario Durigan, permanece como interlocutor do presidente nas questões econômicas, mas ainda não existe confirmação sobre sua continuidade no cargo.
Entre os nomes mencionados para assumir a pasta está o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), que participou da coordenação da campanha presidencial durante o segundo turno. Fonteles, entretanto, já declarou que não recebeu convite nem discutiu cargos com Lula.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo nesta terça-feira, Lula não pretende antecipar a escolha do próximo ministro da Fazenda apenas para atender às expectativas do mercado financeiro. A definição poderá ocorrer depois de sua agenda internacional de novembro, que inclui compromissos na Turquia e nas Filipinas.
A expectativa de integrantes do governo é que as demais negociações avancem depois da decisão sobre a área econômica. Até lá, os partidos continuarão discutindo possíveis indicações e as condições para participar da futura base parlamentar.
O PT também pretende vincular a distribuição de cargos ao compromisso de apoio nas votações do Congresso. Integrantes da legenda afirmam que, durante o terceiro mandato, a participação de determinados partidos no governo não se traduziu necessariamente em votos favoráveis às propostas do Executivo.
A composição ministerial para 2027 terá, portanto, de conciliar a permanência de quadros próximos ao presidente, as reivindicações dos partidos de centro e a busca por apoio legislativo em um Congresso com representação ampliada da oposição.
Por enquanto, não existe acordo sobre a entrega de ministérios ou lideranças ao Centrão. As negociações deverão ganhar intensidade nas próximas semanas, à medida que Lula definir sua equipe econômica e iniciar formalmente a formação do quarto governo.