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Brasileiro que viveu 15 anos sem documentos nos EUA é eleito deputado na Flórida com 62% dos votos

Nascido em Duque de Caxias, Felipe Sousa-Lazaballet chegou aos Estados Unidos aos 14 anos, enfrentou dificuldades para regularizar sua situação migratória e fez história nas eleições americanas.

Por Brasil no Centro Publicado em 5 de novembro de 2026 às 13:01 7 min de leitura
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Brasileiro que viveu 15 anos sem documentos nos EUA é eleito deputado na Flórida com 62% dos votos

O brasileiro Felipe Sousa-Lazaballet (Partido Democrata), de 40 anos, foi eleito deputado estadual na Flórida, nos Estados Unidos, após viver aproximadamente 15 anos sem documentação migratória regular. Natural de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, ele chegou ao país aos 14 anos, enfrentou restrições relacionadas à sua condição de imigrante e, mais de duas décadas depois, conquistou uma cadeira no Legislativo estadual americano.

A vitória ocorreu nas eleições de terça-feira (3), quando o democrata derrotou Bonnie Jackson (Partido Republicano) na disputa pelo Distrito 42, localizado na região metropolitana de Orlando. Felipe recebeu 49.752 votos, equivalentes a 62,4% do total, enquanto sua adversária conquistou 29.972 votos, correspondentes a 37,6%.

Com o resultado, Sousa-Lazaballet tornou-se o primeiro brasileiro nascido no país a ser eleito para a Câmara dos Representantes da Flórida. A apuração divulgada pelas autoridades eleitorais ainda estava sujeita à certificação oficial.

A trajetória do novo parlamentar começou longe da política americana. Filho de uma empregada doméstica cearense, Felipe nasceu em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e mudou-se para os Estados Unidos em 2001, acompanhado da irmã mais velha.

Ele entrou no território americano com visto de turista, mas permaneceu no país depois que a autorização expirou. A situação migratória irregular marcou sua adolescência e os primeiros anos da vida adulta, especialmente quando começou a procurar oportunidades de formação profissional.

Sem documentos que assegurassem sua permanência legal, o brasileiro enfrentou dificuldades para ingressar no ensino superior e construir uma carreira. A experiência o aproximou de movimentos organizados por jovens que chegaram aos Estados Unidos ainda crianças ou adolescentes e passaram a reivindicar proteção contra a deportação.

Conhecidos como dreamers, esses imigrantes ganharam espaço no debate político americano ao defender o acesso à educação, ao trabalho e a mecanismos de regularização migratória.

Felipe passou a participar dessas mobilizações e, em 2010, integrou uma caminhada de aproximadamente 1.500 milhas, de Miami a Washington, organizada para chamar a atenção das autoridades federais para a situação dos imigrantes sem documentação.

A manifestação reuniu ativistas que percorreram diferentes estados americanos para cobrar mudanças na legislação migratória e ampliar a discussão sobre os direitos dos jovens que cresceram no país.

Nos anos seguintes, Sousa-Lazaballet foi beneficiado pelo programa Deferred Action for Childhood Arrivals (Daca), criado em 2012 durante a administração do então presidente Barack Obama (Partido Democrata).

A iniciativa passou a oferecer proteção temporária contra a deportação e autorização de trabalho a imigrantes que chegaram aos Estados Unidos ainda jovens, desde que cumprissem os requisitos estabelecidos pelo governo federal.

O programa não concedia automaticamente residência permanente nem cidadania americana, mas permitia que os beneficiários trabalhassem legalmente e permanecessem no país durante o período de validade da autorização.

Posteriormente, Felipe conseguiu regularizar definitivamente sua situação migratória, obteve residência permanente e concluiu o processo de naturalização em 2021, tornando-se cidadão dos Estados Unidos.

A conquista da cidadania permitiu que o brasileiro passasse a exercer plenamente seus direitos políticos, incluindo a possibilidade de disputar cargos eletivos.

Antes de ingressar na política partidária, Sousa-Lazaballet construiu uma trajetória de atuação em organizações comunitárias da Flórida, especialmente em iniciativas voltadas à assistência de imigrantes e famílias de baixa renda.

Formado em estudos internacionais e administração de empresas, trabalhou no Hope CommUnity Center, instituição que oferece serviços e desenvolve programas destinados à integração de comunidades imigrantes.

A experiência profissional aproximou Felipe de temas relacionados à educação, à inclusão social, ao acesso a serviços públicos e à participação das comunidades nas decisões políticas.

Sua atuação também ganhou destaque após o atentado à boate Pulse, em Orlando, ocorrido em junho de 2016. Na ocasião, um ataque armado deixou 49 mortos e dezenas de feridos, atingindo especialmente a comunidade LGBTQIA+ da cidade.

Felipe participou de iniciativas de acolhimento e assistência às vítimas e aos familiares afetados pela tragédia.

Ao longo dos anos, também se envolveu em movimentos de defesa dos direitos dos imigrantes e da população LGBTQIA+, ampliando sua presença em organizações da sociedade civil.

Com a vitória eleitoral, o brasileiro também passa a ocupar um espaço de representação para essas comunidades no Legislativo da Flórida.

A candidatura começou a ser organizada em 2025, depois que a deputada estadual Anna Eskamani (Partido Democrata) decidiu deixar a disputa pela reeleição para buscar novos objetivos políticos.

Eskamani, que representava o Distrito 42, incentivou Sousa-Lazaballet a concorrer à cadeira, considerando sua atuação comunitária e o conhecimento das demandas da região.

Durante a campanha, o brasileiro apresentou propostas voltadas à redução do custo de vida, ampliação das oportunidades de moradia e melhoria dos serviços de saúde e educação.

O acesso à habitação foi um dos principais temas abordados pelo candidato, diante da elevação dos preços dos imóveis e dos aluguéis na região metropolitana de Orlando.

Felipe também defendeu medidas relacionadas ao transporte público e à redução de despesas que comprometem o orçamento das famílias.

A região onde foi eleito reúne comunidades de diferentes origens e possui forte presença de imigrantes latino-americanos.

Segundo estimativas do Ministério das Relações Exteriores referentes a 2025, aproximadamente 220 mil brasileiros vivem na área de atendimento do Consulado-Geral do Brasil em Orlando, que abrange diferentes localidades da região central da Flórida.

O número representa a população estimada na circunscrição consular, e não especificamente no Distrito 42, onde ocorreu a eleição.

A presença brasileira na região contribuiu para a repercussão da vitória de Sousa-Lazaballet, embora o resultado tenha sido definido pelo conjunto dos eleitores habilitados do distrito.

Após a divulgação dos resultados, Felipe comemorou a eleição nas redes sociais e recordou a trajetória que percorreu desde sua chegada aos Estados Unidos.

O parlamentar eleito associou sua história ao chamado sonho americano e destacou a transformação de sua condição migratória em uma oportunidade de representar politicamente a comunidade onde vive.

A conquista também foi celebrada por organizações comunitárias que acompanharam sua atuação ao longo dos anos.

A eleição de Sousa-Lazaballet ocorreu em um pleito que também registrou vitórias de outros políticos brasileiros nos Estados Unidos.

Em Massachusetts, Priscila Sousa, Rita Mendes e Danillo Sena foram reeleitos deputados estaduais. Em Connecticut, Farley Santos também conquistou um novo mandato.

A presença de brasileiros em diferentes legislativos estaduais acompanha o crescimento e a consolidação das comunidades de origem brasileira em diversas regiões americanas.

No caso de Felipe, a vitória possui uma dimensão particular pela trajetória de imigração irregular que antecedeu sua naturalização e sua entrada na política.

O cargo conquistado corresponde ao de deputado estadual no Brasil. Sousa-Lazaballet integrará a Câmara dos Representantes da Flórida, órgão responsável pela elaboração e votação de leis estaduais ao lado do Senado daquele estado.

A função é diferente da de deputado federal americano, exercida na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, em Washington.

Na Flórida, os representantes estaduais possuem mandato de dois anos e participam das decisões sobre políticas públicas, orçamento, educação, saúde, infraestrutura e outras competências do governo estadual.

Felipe pretende levar para o Legislativo as experiências acumuladas no atendimento a famílias imigrantes e na atuação em organizações comunitárias.

Mais de duas décadas depois de deixar Duque de Caxias, o brasileiro que viveu 15 anos sem documentos migratórios regulares se prepara para assumir um mandato conquistado nas urnas americanas.

Sua posse marcará a passagem de uma trajetória iniciada em meio às dificuldades da imigração para a representação política de uma região que reúne milhares de famílias de diferentes nacionalidades.