Rachado com Alcolumbre e Motta, Governo Lula está isolado no congresso

Cúpula do Legislativo se volta contra o Planalto e agrava crise política em meio à prisão de Bolsonaro

Rachado com Alcolumbre e Motta, Governo Lula está isolado no congresso

O clima em Brasília azedou de vez. Enquanto o governo Lula tenta administrar a crise detonada pela indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal (STF), a cúpula do Congresso comandada por Davi Alcolumbre no Senado e Hugo Motta na Câmara entrou em rota de colisão direta com o Planalto. O resultado é um isolamento crescente do governo em um dos momentos politicamente mais sensíveis desde o início do mandato.

Dias depois de Alcolumbre prometer ser um “novo Davi” para Lula, o senador explodiu ao descobrir que o presidente confirmou Messias para o STF sem sequer consultá-lo. Nos bastidores, o amapaense foi taxativo: “Vou mostrar ao governo o que é não ter o presidente do Senado como aliado”. A indicação contrariou seus planos de ver Rodrigo Pacheco levado à Corte, e a relação com o Planalto simplesmente ruiu.

Na Câmara, o clima é igualmente explosivo. Hugo Motta afirma estar sendo “desrespeitado” pelo líder do PT, Lindbergh Farias, e decidiu cortar relações com o petista após sucessivas críticas públicas feitas por dirigentes do partido à sua condução da pauta. Segundo Motta, Lindbergh estimula ataques para “esconder falhas graves da articulação política do Planalto”.

Tudo isso ocorre enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro está preso preventivamente e sua base pressiona Motta a levar a plenário o projeto da anistia. O relator, Paulinho da Força, recuou e transformou o perdão geral em redução de penas para os envolvidos nos atos do 8 de Janeiro. A reação de Lindbergh foi imediata: “Pautar isso agora seria uma sandice”.

O estopim para a ruptura veio com o projeto antifacção. O governo enviou a proposta original, mas a Câmara aprovou um texto profundamente alterado, relatado por Guilherme Derrite, secretário de Segurança de São Paulo e aliado direto do governador Tarcísio de Freitas. Para Lindbergh, indicar Derrite foi um recado político ruim e um ato de imaturidade de Motta. O presidente da Câmara reagiu com indignação e passou a atribuir ao petista a crise generalizada entre Câmara e governo.

No Senado, o cenário é ainda mais preocupante para o Planalto. Além do rompimento com Alcolumbre, o senador passou a desengavetar projetos que atingem diretamente o governo: expansão de gastos públicos, mudanças no Orçamento para obrigar pagamento de emendas no primeiro semestre de 2026, avanços em matérias que incomodam Lula e a decisão de pautar a aposentadoria especial dos agentes de saúde, com impacto fiscal superior a R$ 20 bilhões. A votação de mais de 50 vetos presidenciais também deve impor derrotas significativas ao governo.

Tentando conter a rebelião, Jorge Messias divulgou nota elogiando Alcolumbre e se colocando à disposição para conversar. A resposta do presidente do Senado, porém, foi seca, distante e protocolar. Hoje, segundo cálculos internos, Messias não teria sequer 31 votos para sua aprovação, quando precisa de pelo menos 41. Jaques Wagner já admite que a sabatina talvez precise ficar para 2026.

No entorno do presidente, auxiliares avaliam que Alcolumbre está usando a indicação ao STF como instrumento de pressão. A crise ganhou contornos ainda mais graves após a operação da Polícia Federal sobre o Banco Master, que prendeu o banqueiro Daniel Vorcaro e ligou o alerta no Congresso. O fundo de pensão Amapá Previdência, controlado por aliados de Alcolumbre, investiu R$ 400 milhões no banco. O presidente da entidade, Jocildo Lemos, foi indicado pelo senador; seu irmão, Alberto Alcolumbre, é conselheiro fiscal.

O senador afirma que os fatos foram divulgados de forma “distorcida”, com o objetivo de atacá-lo politicamente, e diz que todos os investimentos tiveram aval do Banco Central. No entanto, no Planalto, a avaliação é de que o presidente do Senado tenta neutralizar o impacto da operação ao endurecer contra o governo.

O resultado desse conjunto de crises simultâneas é claro: Lula está hoje mais isolado no Congresso do que em qualquer outro momento de seu terceiro mandato. Com Alcolumbre em rebelião aberta e Hugo Motta publicamente rompido com o líder do PT, o governo enfrenta um ambiente hostil, instável e com derrotas praticamente anunciadas no horizonte imediato.