30 anos depois, Brasil ainda se pergunta: Quem matou PC Farias?

Trinta anos depois, a morte de Paulo César Farias ainda ocupa um lugar incômodo na história política brasileira. O empresário, conhecido nacionalmente como PC Farias, foi encontrado morto ao lado da namorada, Suzana Marcolino, na madrugada de 23 de junho de 1996, em uma casa de praia em Guaxuma, em Maceió. O caso atravessou décadas, teve perícias divergentes, inquérito anulado, julgamento tardio e terminou sem nenhum condenado.
PC era muito mais do que o ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello. Ele foi peça central do esquema de arrecadação que abalou o primeiro governo eleito pelo voto direto após a redemocratização e levou Collor ao impeachment em 1992. Ao sair das sombras do poder, tornou-se um dos personagens mais conhecidos do submundo da República.
Quando foi morto, PC tinha 50 anos, estava em liberdade condicional e era alvo de investigações. Também havia expectativa de que prestasse novos depoimentos à CPI das Empreiteiras. Suzana, então com 28 anos, namorava o empresário havia pouco mais de um ano.
A primeira versão apresentada pela polícia de Alagoas sustentava que Suzana teria matado PC com um tiro no peito e depois cometido suicídio. A tese foi amparada por laudo assinado pelo médico-legista Fortunato Badan Palhares, mas passou a ser contestada no ano seguinte, após novas informações colocarem em dúvida a trajetória dos disparos e as conclusões iniciais da perícia.
A reviravolta veio com novas análises técnicas. O perito George Sanguinetti apontou que PC e Suzana teriam sido assassinados. Outros relatórios também indicaram elementos incompatíveis com a hipótese de homicídio seguido de suicídio, incluindo dúvidas sobre a preservação da cena do crime, a posição dos corpos e possíveis sinais de luta corporal na residência.
O caso ganhou contornos ainda mais complexos quando Augusto Farias, irmão de PC, chegou a ser indiciado sob suspeita de envolvimento nas mortes em meio a disputas patrimoniais. A investigação contra ele acabou arquivada pelo Supremo Tribunal Federal em 2002 por falta de provas.
O julgamento só ocorreu em 2013, 17 anos após o crime. Foram levados ao banco dos réus quatro seguranças que trabalhavam na casa de praia na noite das mortes. O Ministério Público sustentou que eles tinham o dever legal de proteger PC e Suzana e falharam nessa obrigação.
No tribunal do júri, os jurados reconheceram a tese de duplo homicídio. Na prática, descartaram a versão de que Suzana teria matado PC e depois tirado a própria vida. Mesmo assim, os quatro acusados foram absolvidos por clemência. O resultado manteve o caso sem resposta definitiva sobre quem matou o casal.
A última tentativa de reverter a absolvição foi encerrada em abril de 2019, quando o Tribunal de Justiça de Alagoas negou a apelação. Com isso, o processo foi concluído sem punição criminal.
Três décadas depois, a pergunta continua aberta. O caso PC Farias permanece como símbolo de uma República que viu escândalos de corrupção chegarem ao centro do poder, mas nunca conseguiu esclarecer plenamente um dos episódios mais explosivos daquele período.
A memória também segue em disputa. De um lado, há quem tente sustentar a tese original de crime passional. De outro, a família de Suzana Marcolino lembra que o próprio júri afastou a acusação contra ela e reconheceu que os dois foram assassinados.
O aniversário de 30 anos das mortes reacende o interesse pelo personagem e pelo período Collor. Documentários e produções audiovisuais voltaram a abordar o caso, enquanto o ex-presidente Fernando Collor, figura central daquele ciclo político, passou a cumprir pena em prisão domiciliar humanitária após condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro em outro processo, relacionado à BR Distribuidora.
O Brasil que se modernizou no discurso, mas conviveu com caixas-pretas políticas, relações subterrâneas de poder e baixa responsabilização institucional, ainda deve respostas sobre PC Farias e Suzana Marcolino. O processo acabou. A dúvida, não.