Após apoiar Flávio Bolsonaro, União Brasil prepara retorno ao governo Lula
Partido pretende liberar filiados para ocupar cargos no novo governo e busca se reposicionar ao centro após a derrota do bolsonarismo nas eleições.

O União Brasil prepara uma mudança de posição em relação ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Depois de romper com o Palácio do Planalto e apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, a legenda deverá autorizar seus filiados a ocupar cargos na administração federal a partir de 2027.
A decisão deverá ser anunciada na próxima semana pelo presidente nacional do partido, Antônio Rueda (União Brasil). Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo nesta sexta-feira (30), integrantes da direção partidária confirmaram que a medida pretende facilitar a retomada das conversas entre diferentes setores da legenda e o governo federal.
A movimentação ocorre poucos dias depois da reeleição de Lula e marca uma mudança na relação entre o partido e o petista. Durante a campanha presidencial, o União Brasil esteve entre as primeiras legendas do centrão a declarar apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, ao lado do PP, seu parceiro na federação União Progressista.
O afastamento formal do governo havia ocorrido em setembro de 2025, quando a federação determinou que seus integrantes deixassem os cargos ocupados na administração federal. Na ocasião, a direção partidária avaliava que a continuidade da aliança com Lula poderia comprometer seus projetos eleitorais para 2026.
A determinação provocou divergências internas. O então ministro do Turismo, Celso Sabino, resistiu à orientação de deixar o cargo e acabou expulso do União Brasil. Posteriormente, filiou-se ao PDT, enquanto o governo promoveu uma mudança no comando da pasta para preservar a participação de aliados ligados à legenda.
Durante a campanha deste ano, a aproximação com o bolsonarismo ganhou força depois que Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula. Integrantes da federação União Progressista passaram a discutir possíveis espaços em uma eventual administração do candidato do PL.
Entre as hipóteses consideradas estava o comando do Ministério da Segurança Pública, para o qual era citado o senador eleito Guilherme Derrite (PP). A vitória de Lula no segundo turno, entretanto, alterou o cenário das articulações partidárias.
Com a derrota de Flávio, o União Brasil passou a concentrar esforços na permanência de Davi Alcolumbre (União Brasil) na presidência do Senado. O parlamentar conta com o apoio de Rueda e mantém uma relação próxima com o Palácio do Planalto, que também tem interesse em sua recondução ao comando da Casa.
A disputa pela presidência do Senado ganhou importância diante do crescimento do Partido Liberal no Congresso Nacional. A legenda de Flávio Bolsonaro terá 29 senadores e 121 deputados federais a partir de 2027 e pretende ampliar sua influência sobre a pauta legislativa e os pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).
Alcolumbre, por sua vez, tem resistido ao avanço dessas iniciativas. A postura do senador provocou atritos com setores do PL e aproximou seus interesses políticos dos objetivos do governo federal na composição da próxima legislatura.
A nova configuração do Congresso também influencia as negociações. O União Brasil contará com 46 deputados federais, enquanto a federação União Progressista reunirá 87 parlamentares na Câmara. Diante de uma base governista minoritária, o PT busca ampliar o diálogo com partidos que não integraram sua coligação eleitoral.
Além da disputa pelo Senado, a relação com Flávio Bolsonaro tornou-se um ponto de divergência entre dirigentes do União Brasil. Segundo a Folha, integrantes da legenda demonstraram insatisfação com o comportamento do senador depois da derrota nas urnas.
Flávio deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos e divulgou uma carta na qual se apresentou inicialmente como o verdadeiro presidente eleito. Posteriormente, o documento foi alterado, passando a utilizar a expressão “líder do Brasil”.
A postura do candidato derrotado contribuiu para o distanciamento de setores do União Brasil em relação ao bolsonarismo. Dirigentes ouvidos pela Folha afirmaram que a legenda pretende se apresentar como uma alternativa de centro no cenário político nacional, buscando uma identidade menos associada à polarização que marcou a disputa presidencial.
Apesar da sinalização de reaproximação, ainda não existem negociações concretas sobre a distribuição de ministérios ou cargos federais ao partido. A autorização para que filiados participem do governo não representa, necessariamente, uma adesão formal da legenda à base de sustentação de Lula.
O PP, presidido pelo senador Ciro Nogueira (PP), também não definiu se acompanhará a mudança de posição do União Brasil. Embora os dois partidos integrem a mesma federação, suas direções ainda discutem os próximos passos diante da nova composição política nacional.
Outro partido que abriu caminho para a participação de filiados no governo foi o PSD. Nesta semana, seu presidente nacional, Gilberto Kassab (PSD), anunciou que integrantes da legenda poderão ocupar funções na administração federal. Diferentemente do União Brasil, o PSD manteve uma posição de neutralidade durante a eleição presidencial.
A expectativa é que as articulações entre o Planalto e os partidos de centro avancem nas próximas semanas, durante a organização do quarto mandato de Lula. A formação da equipe ministerial e a disputa pelos comandos da Câmara e do Senado estarão entre os principais temas das negociações para o início de 2027.