BNDES injeta R$ 3,7 bilhões em empresa de Joesley, MPF abre investigação

Ministério Público Federal apura financiamento bilionário do banco público à LHG Logística, do grupo J&F, por suspeitas de falhas em estudos ambientais e impactos sobre comunidades tradicionais no Pantanal

BNDES injeta R$ 3,7 bilhões em empresa de Joesley, MPF abre investigação

O Ministério Público Federal abriu inquérito para investigar o financiamento de R$ 3,7 bilhões concedido pelo BNDES à LHG Logística, empresa do grupo J&F, controlado pelos irmãos Batista. O dinheiro público foi aprovado para a construção de 400 balsas de minério e 15 empurradores destinados ao transporte hidroviário de minério de ferro e manganês.

O projeto prevê o escoamento da produção extraída em Corumbá, em Mato Grosso do Sul, até o terminal marítimo de Nova Palmira, no Uruguai, por meio dos rios Paraguai e Paraná. A operação é apresentada por seus defensores como uma forma de reduzir gargalos logísticos e ampliar a capacidade de exportação da empresa.

A apuração do MPF, no entanto, mira possíveis falhas na avaliação dos impactos ambientais e sociais do empreendimento. O órgão aponta insuficiência de estudos sobre os efeitos da atividade no bioma Pantanal e ausência de análise adequada sobre possíveis violações de direitos de comunidades tradicionais.

O caso reacende a discussão sobre a relação entre bancos públicos, grandes grupos empresariais e projetos de alto impacto ambiental. No governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o BNDES voltou a ocupar papel central no financiamento de grandes operações empresariais, o que tem provocado cobranças por transparência, critérios técnicos e avaliação rigorosa de riscos.

Segundo o BNDES, o financiamento utiliza recursos do Fundo da Marinha Mercante. O banco afirma que 87% do valor será aplicado em estaleiros das regiões Norte e Nordeste, incluindo unidades no Amazonas, no Pará e na Bahia. A expectativa divulgada é de geração de cerca de 5,5 mil empregos diretos e indiretos.

No estaleiro baiano Enseada, está prevista a criação de aproximadamente 940 postos de trabalho diretos e indiretos durante a fase de construção. O projeto também envolve os estaleiros Juruá, Rio Amazonas e Rio Maguari, dentro da estratégia de estímulo à indústria naval nacional.

Apesar da justificativa econômica, o inquérito do MPF coloca em evidência a necessidade de compatibilizar desenvolvimento, proteção ambiental e respeito às populações afetadas. A hidrovia passa por uma das regiões ambientalmente mais sensíveis do país, o Pantanal, cuja preservação depende de controle rigoroso sobre atividades de grande escala.

A investigação também chama atenção pelo histórico do grupo J&F em operações envolvendo recursos públicos. A volta de financiamentos bilionários a conglomerados empresariais tradicionais reforça a cobrança para que o BNDES atue com governança, responsabilidade socioambiental e prestação de contas à sociedade.

O inquérito ainda está em fase inicial e não representa conclusão sobre irregularidades. A apuração deve avaliar se os estudos apresentados são suficientes, se houve análise adequada dos riscos climáticos e ambientais e se comunidades tradicionais foram devidamente consideradas no processo.