Boulos disputa Ministério das Cidades com aliados de Hugo Motta e MDB pressiona Lula por espaço no governo
Pasta responsável pelo Minha Casa, Minha Vida e por obras do PAC é alvo de negociações para 2027, com Isnaldo Bulhões e Jader Filho entre os cotados.

O Ministério das Cidades tornou-se um dos principais focos de disputa na formação do quarto governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Responsável por programas de grande visibilidade, como o Minha Casa, Minha Vida e obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a pasta desperta o interesse de integrantes do núcleo político do presidente e de lideranças do MDB que buscam ampliar sua participação na próxima administração federal.
Entre os nomes cotados para assumir o ministério em janeiro de 2027 estão o atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL-SP), e os deputados federais Isnaldo Bulhões Filho (MDB-AL) e Jader Filho (MDB-PA). A possível escolha de Bulhões ganhou relevância por sua proximidade com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que negocia apoios para disputar a reeleição ao comando da Casa.
As informações foram divulgadas nesta quinta-feira (5) pela jornalista Tatiana Farah, do UOL. Segundo a apuração, auxiliares do Palácio do Planalto e dirigentes partidários já discutem alternativas para o ministério, embora Lula ainda não tenha iniciado conversas individuais com os possíveis indicados.
A movimentação ocorre em meio à reorganização da base parlamentar do governo após as eleições de outubro. Reeleito para um quarto mandato, Lula terá de negociar com um Congresso no qual partidos de centro e de direita continuam ocupando posições decisivas.
O Ministério das Cidades é considerado estratégico nessas conversas porque administra políticas de habitação, mobilidade urbana e infraestrutura, além de participar da execução de investimentos federais distribuídos por estados e municípios.
A pasta também concentra programas que permitem ao governo anunciar entregas de moradias, obras de urbanização e intervenções em infraestrutura urbana, iniciativas frequentemente acompanhadas por prefeitos, governadores e parlamentares.
Desde 2011, o comando do ministério tem sido ocupado por representantes de partidos de diferentes coalizões governistas, como PP, PSD e MDB. A permanência dessas legendas na administração da área reforça sua importância nas negociações políticas entre o Executivo e o Congresso.
Agora, o interesse de Boulos introduz uma alternativa vinculada à esquerda, enquanto os nomes do MDB representam a possibilidade de preservar o espaço do partido na estrutura ministerial.
Boulos chegou à Secretaria-Geral da Presidência com a missão de ampliar o diálogo do governo com movimentos sociais e organizações da sociedade civil. Sua trajetória política está ligada à militância pela moradia popular, especialmente à atuação no Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).
Essa experiência é apontada por aliados como uma das razões que poderiam favorecer sua transferência para o Ministério das Cidades, responsável pelo principal programa habitacional do governo federal.
A eventual indicação também ampliaria a presença política de Boulos em uma estrutura administrativa com capacidade de execução de obras e políticas públicas de alcance nacional.
Outro fator considerado nas articulações é a proximidade entre o ministro e Lula. Durante a campanha presidencial de 2026, Boulos participou ativamente da mobilização de apoiadores do presidente e da estratégia de enfrentamento ao então candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Na reta final do segundo turno, o ministro esteve envolvido nas discussões relacionadas à proposta de abertura de sigilos financeiros e telefônicos dos candidatos e de seus familiares, apresentada por Lula durante a campanha.
A iniciativa não avançou, mas ganhou repercussão no debate eleitoral.
Boulos também participou das negociações sobre o fim da escala de trabalho 6×1 e das conversas com representantes de trabalhadores de aplicativos, temas que receberam atenção do governo nos últimos meses.
Segundo a reportagem do UOL, o ministro ainda discute com interlocutores políticos uma possível mudança do PSOL para o PT. Não há, contudo, confirmação de que a troca partidária será realizada.
Apesar de aparecer como possível candidato ao Ministério das Cidades, Boulos também é considerado para permanecer na Secretaria-Geral da Presidência.
Nesse cenário, a estrutura poderia ser fortalecida durante o próximo mandato para ampliar a interlocução do governo com movimentos sociais, sindicatos e organizações que participaram da campanha pela reeleição de Lula.
Outra alternativa mencionada nas conversas de bastidores é sua transferência para o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, responsável por programas como o Bolsa Família.
Nenhuma dessas possibilidades foi anunciada oficialmente pelo Palácio do Planalto.
Enquanto aliados de Boulos defendem sua permanência em uma posição relevante no governo, dirigentes do MDB trabalham para manter o comando do Ministério das Cidades.
Um dos nomes considerados é o de Jader Filho, que ocupou a pasta durante o terceiro mandato de Lula e deixou o cargo para disputar uma vaga na Câmara dos Deputados pelo Pará.
Ele foi eleito em outubro como o segundo deputado federal mais votado do estado, resultado que reforçou sua posição dentro do partido.
Ao deixar o ministério, Jader Filho foi sucedido por Vladimir Lima, seu então secretário-executivo, que assumiu a continuidade dos trabalhos administrativos.
Auxiliares ligados ao ex-ministro avaliam que sua experiência na condução do Minha Casa, Minha Vida e de projetos de infraestrutura poderá favorecer um eventual retorno ao Executivo.
Entretanto, essa possibilidade enfrenta a concorrência de outro integrante do MDB.
O deputado Isnaldo Bulhões Filho, de Alagoas, passou a ser mencionado com maior frequência nas articulações pela pasta.
O parlamentar mantém uma relação política próxima com Hugo Motta e integra um grupo de dirigentes do MDB com capacidade de interlocução com diferentes bancadas da Câmara.
Sua eventual indicação é considerada nas conversas sobre a formação de uma maioria parlamentar que dê sustentação ao governo Lula a partir de 2027.
A aproximação com Motta tornou-se especialmente relevante porque o presidente da Câmara busca consolidar sua candidatura à reeleição, prevista para fevereiro.
O governo já manifestou apoio à continuidade de Motta no cargo, enquanto partidos do Centrão negociam sua participação nos espaços de comando do Congresso e na composição ministerial.
Nesse cenário, a possibilidade de Isnaldo assumir o Ministério das Cidades passou a integrar as discussões sobre os compromissos políticos entre as legendas.
A indicação também poderá depender da posição do senador Renan Calheiros (MDB-AL), uma das principais lideranças do partido e aliado histórico de Lula.
Renan deixou a disputa eleitoral de outubro enfraquecido. O senador não conseguiu renovar seu mandato, enquanto seu filho, Renan Filho (MDB-AL), foi derrotado na eleição para o governo de Alagoas.
Uma eventual manifestação favorável de Renan à indicação de Isnaldo poderia ampliar a força do deputado nas negociações internas do MDB e com o Palácio do Planalto.
A reportagem, entretanto, ressalta que ainda não há definição sobre o destino político dos integrantes do grupo alagoano ou sobre a possibilidade de Renan Filho retornar à Esplanada dos Ministérios.
O interesse de diferentes correntes políticas no Ministério das Cidades está diretamente relacionado à dimensão de seu orçamento e à participação do Congresso na destinação dos recursos.
Um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU) identificou que aproximadamente 40% das dotações destinadas a obras da pasta entre 2021 e 2024 tiveram origem em emendas parlamentares.
O percentual diz respeito especificamente ao orçamento de obras analisado pelo tribunal, e não à totalidade dos recursos do ministério.
O estudo apontou que a participação expressiva das emendas amplia a influência do Legislativo na escolha dos investimentos e pode provocar mudanças nas prioridades inicialmente estabelecidas pelo Executivo.
Também foram identificados problemas relacionados à previsibilidade orçamentária, à fragmentação de recursos e à execução de empreendimentos financiados pelas emendas.
O TCU observou que alterações frequentes na distribuição dos valores exigem readequações no planejamento do ministério, além de dificultarem a coordenação de projetos de longo prazo.
A presença dos parlamentares nas decisões sobre investimentos ajuda a explicar a importância política atribuída ao comando da pasta.
A liberação de recursos para obras urbanas depende de procedimentos administrativos, critérios técnicos e disponibilidade orçamentária, mas a indicação de investimentos por deputados e senadores também influencia a organização das prioridades.
O Minha Casa, Minha Vida acrescenta peso à disputa porque reúne projetos habitacionais de interesse direto de municípios e governos estaduais, com participação de diferentes instituições financeiras e agentes públicos.
O PAC, por sua vez, envolve obras de infraestrutura e urbanização que exigem articulação entre ministérios, estados, prefeituras e parlamentares.
A escolha do próximo ministro deverá considerar tanto a capacidade de condução dessas políticas quanto os compromissos assumidos pelo governo nas negociações com o Congresso.
A disputa ocorre enquanto Lula tenta definir a configuração política de sua próxima administração e conciliar interesses de integrantes do PT, de partidos aliados e de legendas de centro.
A composição da Esplanada deverá refletir o resultado das eleições de outubro e os acordos necessários para a aprovação de propostas governistas na próxima legislatura.
Embora as conversas já tenham começado, o presidente ainda não recebeu os possíveis indicados para tratar diretamente da sucessão no Ministério das Cidades, segundo a apuração do UOL.
A prioridade imediata do governo esteve concentrada na aprovação da PEC da Segurança Pública, concluída pelo Senado na terça-feira (3).
A proposta prevê mudanças na organização do sistema nacional de segurança pública e deverá produzir novos desdobramentos administrativos, incluindo discussões sobre a estrutura ministerial.
Com essa etapa encerrada no Congresso, as negociações para a composição do quarto governo Lula tendem a ganhar espaço entre dirigentes partidários e auxiliares presidenciais.
Por enquanto, Guilherme Boulos, Isnaldo Bulhões Filho e Jader Filho são nomes mencionados nas articulações, sem anúncio oficial de escolha ou convite.
O destino do Ministério das Cidades dependerá das decisões de Lula sobre a distribuição dos cargos e do alcance dos acordos políticos que pretende construir para iniciar o novo mandato.