
A reta final da CPI do INSS abriu um raro ponto de convergência entre o PT e partidos do Centrão em Brasília. Com o avanço das apurações sobre o esquema de descontos irregulares em aposentadorias e o surgimento de citações ao caso Master e a Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, lideranças governistas e setores influentes do Congresso passaram a atuar para impedir a prorrogação dos trabalhos da comissão.
O movimento ganhou força às vésperas do encerramento formal da CPI, previsto para a próxima semana. Nos bastidores, a avaliação é que a continuidade das investigações deixou de representar desgaste apenas para o Palácio do Planalto e passou a ameaçar figuras de peso de diferentes campos políticos, incluindo nomes ligados ao centro e à direita. O efeito prático foi a formação de uma frente informal em favor do esvaziamento da comissão.
A articulação ocorre num momento em que parlamentares da oposição tentam manter o colegiado em funcionamento. O pedido de prorrogação já reúne assinaturas suficientes no papel, mas segue travado na cúpula do Senado. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), resiste a levar adiante o requerimento, enquanto líderes partidários trabalham para reduzir a pressão e impedir que o tema ganhe tração política.
A leitura entre congressistas é que a CPI passou a tocar áreas sensíveis demais em pleno ano eleitoral. O caso deixou de ser tratado apenas como uma crise do governo depois que surgiram informações sobre relações empresariais, políticas e institucionais conectadas ao banqueiro Daniel Vorcaro e ao escândalo do Banco Master. Ao mesmo tempo, a menção ao nome de Lulinha elevou o alerta no entorno do presidente.
Dentro desse cenário, dirigentes partidários passaram a defender reservadamente um freio nas apurações. O temor é que novos vazamentos e novos desdobramentos atinjam lideranças com influência no Congresso, ampliando o desgaste de partidos que hoje preferem reduzir a temperatura política do caso.
A ofensiva para sepultar a CPI inclui pressão sobre parlamentares que assinaram o pedido de prorrogação e uma tentativa de deixar a oposição isolada na defesa da continuidade da comissão. Até aqui, não houve retirada formal de assinaturas, mas a operação política segue em curso, ancorada também no entendimento de que a Mesa do Senado não seria obrigada a estender os trabalhos.
O núcleo de apoio à prorrogação está concentrado em setores da oposição, especialmente parlamentares do PL, do Novo e de legendas alinhadas à direita. Já o PT não aderiu ao requerimento e, segundo relatos de bastidores, atua em sintonia com a direção do Senado para manter o pedido parado. Governistas sustentam publicamente que a comissão perdeu efetividade e que decisões judiciais recentes têm dificultado novas oitivas e aprofundamentos.
O deputado Rogério Correia (PT-MG) criticou a possibilidade de extensão da CPI e afirmou que a comissão já não apresenta condições de avançar. A fala reflete o ambiente criado entre governistas, que passaram a ver mais riscos do que benefícios na manutenção da investigação.
Do lado do Centrão, o desconforto aumentou à medida que vieram à tona registros e mensagens envolvendo personagens com trânsito nas cúpulas partidárias. Integrantes de legendas influentes no Congresso admitem, ainda que reservadamente, que a prioridade agora é conter danos e evitar que a comissão continue produzindo fatos políticos de alto impacto.
A reação da CPI foi recorrer ao Supremo Tribunal Federal. O presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), acionou a Corte ao lado do relator Alfredo Gaspar (União Brasil-AL) e do deputado Marcel Van Hattem (Novo-RS), alegando omissão da Mesa Diretora do Senado por não dar andamento ao pedido já protocolado. A judicialização, porém, ampliou o incômodo na cúpula do Congresso, que vê na iniciativa uma tentativa de driblar a condução política da Casa.
Nos bastidores, cresce a avaliação de que o relatório final já deverá atingir os alvos centrais conhecidos até aqui e que uma prorrogação prolongaria um desgaste institucional sem garantia de novos resultados concretos. Em ano de disputa eleitoral, esse cálculo passou a pesar mais do que o discurso público em favor da apuração.