Cristovam Buarque: “Fábrica de feminicidas”

O ex-senador alerta para a relação entre educação e feminicídio, defendendo mudanças profundas no sistema escolar para acabar com a cultura de violência contra a mulher.

Cristovam Buarque: “Fábrica de feminicidas”

A sociedade precisa garantir escola de qualidade e incluir conteúdo que ensine o respeito às meninas

Há 30 anos, quem visita o Distrito Federal surpreende-se com a civilidade dos motoristas, que respeitam pedestres quando estes desejam atravessar a rua. O respeito à faixa de pedestre não foi construído pela engenharia de trânsito nem por leis que obrigassem a essa postura: nasceu de uma campanha educativa junto à população e, principalmente, nas escolas, nas quais as crianças se empolgaram com a ideia de pressionar a família a respeitar os pedestres.

A vergonha do feminicídio precisa ser enfrentada com cadeia para os bandidos e desapropriação de todos os seus bens. E a experiência do trânsito em Brasília precisa ser lembrada para educar a população masculina desde a infância, de modo a quebrar a arrogância machista que assedia, molesta, violenta e assassina mulheres.

A sociedade precisa fazer a prevenção contra o feminicídio por meio da educação, em duas dimensões: garantir escola de qualidade para todas as crianças em horário integral e incluir conteúdo humanista, que ensine o respeito às meninas. 

Comemoramos que, depois de quase meio século de democracia, praticamente universalizamos as matrículas. Mas as crianças não permanecem de seis a oito horas por dia, 200 dias por ano, durante 11 anos de suas vidas, em escolas que despertem entusiasmo, esperança e respeito ao outro, solidariedade com a natureza e com todos os seres humanos. Sem um sistema educacional sólido de educação básica para todas as crianças e que as respeite em suas necessidades, dificilmente construiremos uma geração de homens comprometidos com o respeito pleno às mulheres.

Muitos dos feminicidas passaram por escolas que não os educaram. Em geral, os feminicidas têm instrução, mas não educação. Os jovens bandidos que cometeram estupro contra uma menina no Rio de Janeiro eram alunos de uma de nossas melhores escolas, o Colégio Pedro II, assim como foram alunos do nosso orgulho ITA os que fizeram um jogo eletrônico brincando com a humilhação de mulheres. É impossível termos educação humanista sem um sistema escolar de qualidade para todos; mas esse sistema não terá papel de formação humanista se se limitar a instruir sem dar formação ética.

A escola, por melhor que seja, terá eficácia limitada se a “escola fora da escola” trabalhar na direção oposta. Quando a mídia promove o machismo, ela destrói o que a escola tenta ensinar; discursos religiosos que afirmam supremacia masculina inviabilizam a formação de respeito às mulheres; não adianta escola se as redes sociais têm se transformado em espaços de incentivo à violência contra a mulher.

O Brasil precisa fechar a fábrica de feminicídio. Punir os agressores de mulheres, mas também formar um país no qual deixemos de produzir feminicidas por falta de escola, escola incompleta ou escola sem humanismo.