Élio Gaspari: “Moraes atravessou a rua para escorregar em cascata de banana ao dar decisão sobre Flávio”
Élio Gaspari critica a decisão de Alexandre de Moraes sobre os passaportes de Flávio Bolsonaro e analisa os efeitos políticos e diplomáticos do episódio.

Com sua confiança inesgotável no poder da polícia , o ministro Alexandre de Moraes decidiu mandar apreender os passaportes de Flávio Bolsonaro. É o velho faço-porque-posso.
Deu a Flávio a aura de perseguido e ele, com a família e os passaportes, está nos Estados Unidos . E seu documento italiano continua válido.
Caso clássico de atravessar a rua para escorregar na cascata de banana da outra calçada.
Sacrilégio
Flávio Bolsonaro poderia ter poupado o público da sua comparação com o general francês Charles de Gaulle . Em 1940, os alemães entraram em Paris e De Gaulle fugiu para liderar a Resistência a partir de Londres.
Viveu modestamente, com a mulher e a filha, que tinha síndrome de Down. Davam-lhe tão pouca importância que não gravaram o seu primeiro apelo aos franceses. O escritor Romain Gary achou que era um pseudônimo . Ele se impôs.
Aquela barra era tão pesada que o general Leclerc, comandante da tropa francesa que entrou em Paris, nem Leclerc se chamou. Em 1940, ele era o capitão Philippe de Hauteclocque, um rico aristocrata. Quando chegou a Londres, virou Leclerc para poupar a família de represálias alemãs.
Diplomacia
Lá se foi o romance do governo Trump com os Bolsonaros que há um ano provocava tempestades e trovoadas.
Os diplomatas prevaleceram. Foram vários os fatores que levaram a isso, o principal é o horror epidérmico que Donald Trump tem aos perdedores.
O diplomata que definiu a vitória de Lula como “definitiva” e “surpreendente” sabia o que estava fazendo.
No pico da ditadura, quando o adido militar americano circulava com desenvoltura junto à tigrada, o cônsul em São Paulo, Frederic Chapin, mandava relatórios sistemáticos para Washington contando prisões, torturas e assassinatos.
Em dezembro de 1976, Chapin enviou um recado ao cardeal Paulo Evaristo Arns avisando que haveria uma operação contra o PCdoB em São Paulo.
Era o massacre da Lapa , onde foram assassinados Pedro Pomar e Ângelo Arroyo.