
O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo criticou a influência atribuída ao empresário Joesley Batista, um dos donos do grupo J&F, em articulações internacionais envolvendo o governo brasileiro. Segundo o ex-chanceler, o empresário teria passado a exercer um papel informal em temas que deveriam ser conduzidos pelo Itamaraty.
A declaração foi dada em entrevista à Revista Oeste. Araújo afirmou que haveria no Brasil uma espécie de “Estado paralelo dentro do Estado” e citou a atuação de Joesley como exemplo de uma estrutura de poder operando fora dos canais institucionais previstos pela Constituição.
A crítica ocorre em meio à repercussão sobre a participação do empresário em conversas envolvendo autoridades estrangeiras. Reportagens recentes apontaram que Joesley ajudou a viabilizar uma aproximação entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Donald Trump (Partido Republicano), o que ampliou os questionamentos sobre o espaço ocupado por empresários privados na formulação da política externa brasileira.
Para Ernesto Araújo, a atuação de Joesley levanta dúvidas que precisam ser respondidas publicamente. O ex-chanceler questionou quais temas foram tratados, o que teria sido oferecido, quem se beneficiou das conversas e se houve prejuízo a interesses nacionais ou a setores específicos da economia brasileira.
O empresário é um dos nomes mais influentes do setor de carnes no mundo. O grupo J&F controla a JBS, gigante brasileira com forte presença nos Estados Unidos. A Pilgrim’s Pride, empresa norte-americana controlada pela JBS, doou US$ 5 milhões ao comitê de posse de Trump em 2025, valor apontado pela imprensa internacional como uma das maiores contribuições individuais daquele ciclo.
A presença de Joesley em agendas de alto nível também reacendeu discussões sobre a relação entre grandes grupos empresariais, governos e decisões estratégicas de Estado. No Brasil, a J&F já foi protagonista de episódios de grande impacto político e empresarial, incluindo sua atuação como uma das maiores financiadoras de campanhas eleitorais no país em 2014.
No governo Lula, o tema ganha peso adicional porque envolve a condução da diplomacia brasileira em um ambiente internacional delicado, marcado por disputas comerciais, guerras, pressão sobre cadeias produtivas e reposicionamento de potências. A crítica de Araújo mira justamente a falta de clareza sobre quem fala em nome do Brasil e quais interesses são levados à mesa em conversas sensíveis.
Embora não haja confirmação oficial de que Joesley atue formalmente em nome do governo, a presença do empresário em articulações internacionais alimenta cobranças por transparência. A política externa, por sua natureza, exige institucionalidade, responsabilidade pública e controle democrático, especialmente quando interesses privados se aproximam de decisões que podem afetar o país inteiro.