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Opinião

Fabiano Lana: “O maior inimigo do esquerdista é sua autoanálise como moral superior”

Por Fabiano Lana Publicado em 8 de outubro de 2026 às 17:00 4 min de leitura
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Fabiano Lana: “O maior inimigo do esquerdista é sua autoanálise como moral superior”

Um passeio intenso pelas redes sociais nas últimas horas mostra uma série incessante de depoimentos de quem se vê frustrado com o resultado eleitoral das eleições de domingo . Um sentimento que poderia ser resumido da seguinte maneira: “Oh, como nós, que somos defensores dos avanços sociais, da democracia e da igualdade, não triunfamos seguidamente nas urnas com os votos de todos os brasileiros que tentamos ajudar?” Algumas variações do luto elevam o tom e revelam até mesmo certo ressentimento com as pessoas mais cuidadosas que não compartilham os pensamentos dos autoiluminados. Os rotulados como “pobres de direita” estariam entre os perigosos pela “escalada do fascismo que ameaça o País”.

Agora que o inimigo a ser batido é alguém tão controverso como Flávio Bolsonaro , até que, no limite, faria sentido a choradeira passivo-agressiva. Mas, lembrem-se, esta sempre foi a estratégia da esquerda. Foi utilizado contra políticos até mesmo de centro-esquerda, como Fernando Henrique Cardoso , José Serra , Marina Silva , Geraldo Alckmin ou Aécio Neves . Como candidatos à Presidência da República, sempre tiveram que ser confrontados com a acusação de trabalharem contra a ascensão social do Brasil. No limite, nem democrático seria. Alckmin, em particular, já sofreu essa acusação.

Sempre foi muito fácil para o petismo vencer a guerra retórica contra o PSDB. “Vocês são de direita”, diziam a plenos pulmões. Para ser mais preciso, um exemplo concreto: “Fico imaginando quando ele encontra um pobre, é capaz de pisar e não enxergar”, disse Lula, em relação a Aécio, em 2014, num comício pró-Dilma Rousseff em Manaus. Tucanos, tíbios, se abatam com esse tipo de acusação. Abaixavam a cabeça enquanto os adversários triunfavam. Ser taxado de “direita” causou um enorme abatimento no ninho desses pássaros em extinção.

Porque havia (e ainda há) um sentimento de superioridade moral em ser uma pessoa “progressista” que realmente não só se preocupa, mas sabe apontar o caminho que os mais pobres devem seguir para superar suas dificuldades. Vêm com desprezo até mesmo pequenos empreendedores, como motoristas de aplicativo, auxiliares de pedreiro, entregadores, que exigem uma opção diferente como caminho político do Brasil. Seriam apenas, na visão de muitos ilustrados, apenas escravos que ainda não perceberam a condição em que se encontram (aliás, a classe média é vista como grupo cooptado pelos privilegiados é um resquício do marxismo). São poucos os que percebem o autoritarismo e a arrogância dessa postura, muitas vezes tomadas por quem está no andar de cima dos estratos sociais.

O outro passo foi jogar cartas identitárias a qualquer um que fizesse críticas, mesmo que ponderadas, a personalidades públicas de esquerda e do petismo. O vocabulário é amplo: “transfóbico”, “misógino”, “machista”, “racista” e o onipresente “fascista”. Houve e ainda há uma estratégia de redução ou contendo uma caricatura pejorativa. Funcionou por muito tempo. Agora, com a decadência de uma centro-direita, avançamos, mais argumentativa, a nova direita passou a se utilizar da mesma moeda da agressão. Há uma folga, para usar um termo da tribo. Em bom português: contra-ataque.

Com a iminência da vitória de Flávio Bolsonaro, uma das grandes dificuldades agora na guerra simbólica e retórica que trava em toda eleição é que o inimigo a ser batido não só aceita, como até se orgulha de alguns rótulos antes eficientes para diminuir o oponente – inclusive o de “transfóbico”. Como maior exemplo desse novo espírito do tempo, ser de direita, de vergonha, passou a ser ostentação, ver a letra do funk “Solinho Fora PT”, cantado nesta segunda-feira, 5, a plenos pulmões pelos campeões de voto de São Paulo, o federal Lucas Pavanato e a estadual Eduarda Campopiano , e repetido em todo Brasil: “Fora PT, aqui não é seu lugar, ‘tamos’ dominando tudo e aqui não é seu lugar. Xô sai para lá, esquerdista, sai do meio. A direita ‘tá’ chegando o bonde todo está sem freio”. Melhor sair da frente.