Fundo ligado a advogado de Eduardo Bolsonaro ficou inativo por quase 4 anos antes de receber US$ 2 milhões para “Dark Horse”

Um fundo sediado nos Estados Unidos e administrado por um advogado próximo ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) permaneceu sem movimentação operacional por quase quatro anos antes de receber a primeira transferência destinada, segundo a investigação, ao financiamento do filme “Dark Horse”, produção baseada na trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A informação consta em relatório da Polícia Federal que teve o sigilo levantado pelo Supremo Tribunal Federal. O documento aponta que o Havengate, embora permanecesse formalmente ativo, não apresentava atividade operacional relevante desde sua criação até fevereiro de 2025, quando recebeu US$ 2 milhões.
O fundo é administrado pelo advogado de imigração Paulo Calixto, que mantém proximidade com Eduardo Bolsonaro. A PF e a Procuradoria-Geral da República investigam a origem e a destinação dos recursos que passaram pela estrutura financeira, inclusive a possibilidade de que parte dos valores tenha sido utilizada para outras finalidades além da produção cinematográfica.
De acordo com o relatório, o Havengate havia sido originalmente criado para operações relacionadas ao setor imobiliário. Para os investigadores, a retomada de sua movimentação financeira após anos de inatividade e a posterior utilização para transferências internacionais relacionadas a uma produção cinematográfica justificam o aprofundamento das apurações.
A primeira remessa identificada pela PF ocorreu em 13 de fevereiro de 2025. O valor foi de US$ 2 milhões e teria origem na Entre Investimentos. Segundo os investigadores, a operação marcou a reativação financeira do fundo após um longo período sem movimentações.
A Polícia Federal também identificou uma comunicação na qual o publicitário Thiago Miranda teria encaminhado a Daniel Vorcaro uma captura de tela de uma conversa atribuída a Eduardo Bolsonaro. Segundo o relatório, o conteúdo apresentava orientações sobre a forma como os recursos poderiam ser administrados nos Estados Unidos.
Transferências chegaram a US$ 12,3 milhões
As investigações ganharam novos elementos após o operador financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, firmar acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República.
Segundo o relato apresentado pelo colaborador, ele realizou sete transferências bancárias para o Havengate ao longo de 2025, totalizando US$ 12,3 milhões, a pedido de Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
O valor equivaleu a aproximadamente R$ 69 milhões considerando as cotações da época.
O acordo de colaboração ainda passa pelas etapas previstas para sua homologação. Em audiência realizada nesta semana no gabinete do ministro André Mendonça, no STF, foram avaliados aspectos relacionados à voluntariedade, regularidade e legalidade da negociação.
Além das transferências bancárias, o colaborador relatou ter realizado entregas de dinheiro em espécie a pessoas indicadas por Vorcaro. Ele afirmou, entretanto, que não tinha conhecimento sobre a finalidade dos valores.
A hipótese investigada pela PF e pela PGR é que as transferências realizadas para o Havengate estivessem relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”. Ao mesmo tempo, os investigadores apuram se parte dos recursos poderia ter sido utilizada para custear despesas relacionadas à permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Eduardo deixou o Brasil em fevereiro de 2025 e passou a viver no Texas. Na época, justificou a mudança alegando sofrer perseguição política no país. As transferências para o Havengate ocorreram entre fevereiro e setembro daquele ano.
A última das sete operações identificadas teria movimentado US$ 1,66 milhão, cerca de R$ 9 milhões no câmbio daquele período.
Documentos foram divulgados antes de sessão no STF
O levantamento do sigilo dos documentos ocorreu por determinação do ministro André Mendonça, após solicitação do presidente do Supremo, Edson Fachin.
A divulgação acontece às vésperas de uma sessão extraordinária do STF marcada para terça-feira (15). O colegiado deverá analisar informações reunidas pela Polícia Federal sobre mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes (STF).
O material integra uma investigação mais ampla sobre as relações do ex-banqueiro com autoridades e pessoas próximas ao poder público. Os documentos também estão no centro de uma disputa institucional que envolve diferentes integrantes da Suprema Corte.
As informações reunidas pela PF ainda são objeto de investigação. Eventuais responsabilidades criminais dependerão da análise das provas e das decisões das autoridades competentes.