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Economia

Indústria argentina perde espaço com abertura comercial promovida por Milei

Concorrência de importados, queda do consumo e custos elevados pressionam fábricas, reduzem empregos e deixam parte da capacidade industrial ociosa

Por Brasil no Centro Publicado em 10 de setembro de 2026 às 15:26 5 min de leitura
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Indústria argentina perde espaço com abertura comercial promovida por Milei

A indústria argentina atravessa um período de forte pressão desde que o governo de Javier Milei (La Libertad Avanza) acelerou a abertura comercial e reduziu barreiras à entrada de produtos estrangeiros. A estratégia, adotada como parte de um programa mais amplo de liberalização da economia, ajudou a ampliar a oferta de mercadorias e reduzir algumas distorções de preços, mas também expôs empresas locais a uma concorrência que muitos empresários consideram difícil de enfrentar.

Na Kioshi, fabricante de calçados instalada na região sul de Buenos Aires, os efeitos são visíveis no chão de fábrica. Há cerca de três anos, a empresa empregava aproximadamente 120 pessoas e produzia 40 mil pares de tênis e chinelos por mês. Atualmente, restam 14 funcionários e a produção caiu para cerca de um quarto daquele volume.

“O mercado interno está morto. Há pessoas que se endividam para comprar comida, então imagine tentar comprar sapatos”, afirmou Emmanuel Fernandez, diretor da empresa.

A situação se agravou depois que o governo argentino começou a retirar cotas de importação, impostos e outras barreiras comerciais. Para Fernandez, a entrada de produtos estrangeiros ocorreu em velocidade suficiente para comprometer a atividade de fabricantes que dependem do mercado doméstico.

A imagem das máquinas paradas tornou-se, segundo ele, um símbolo das dificuldades enfrentadas pelo setor. “Somos pessoas da indústria, é nossa paixão. Então, quando você vê apenas 10% das máquinas em operação, isso dói”, declarou.

Os indicadores industriais ajudam a dimensionar o problema. Em junho, aproximadamente 40% da capacidade instalada da indústria argentina estava ociosa. Entre junho e julho, a produção manufatureira recuou 5%, a maior queda registrada em 16 meses.

A União Industrial Argentina passou a cobrar respostas do governo diante do fechamento de empresas e da redução dos postos de trabalho. Segundo os dados citados no levantamento, cerca de 90 mil empregos industriais foram perdidos e quase 30 mil empresas deixaram de operar nos últimos três anos.

Inflação perde espaço para desemprego

A mudança no cenário econômico também alterou as principais preocupações dos argentinos. A inflação, que estava entre os maiores problemas enfrentados pelo país quando Milei chegou à Presidência e apresentou redução significativa durante seu programa de ajuste fiscal, perdeu espaço para o desemprego nas pesquisas de opinião.

O governo, entretanto, sustenta que os efeitos sobre a indústria fazem parte de uma transformação estrutural da economia e que empresas menos competitivas tendem a desaparecer enquanto novos negócios surgem.

Milei recorre ao conceito de “destruição criativa”, formulado pelo economista Joseph Schumpeter, para defender a substituição de atividades consideradas pouco eficientes por empreendimentos capazes de competir em um ambiente mais aberto.

O problema apontado por empresários e trabalhadores é o período de transição. Enquanto novas empresas e oportunidades não aparecem, trabalhadores desligados das fábricas precisam buscar alternativas fora da indústria.

“Enquanto esperamos pelo surgimento de novas empresas e empregos, o que vemos são pessoas perdendo seus empregos e indo trabalhar para aplicativos de entrega”, afirmou Fernandez.

Entre os negócios que encerraram atividades estão empresas de pequeno e médio porte. Uma subsidiária da multinacional química suíça Clariant, localizada a cerca de 90 quilômetros de Buenos Aires, fechou as portas no ano passado depois de aproximadamente cinco décadas de funcionamento.

Dos 42 funcionários dispensados, apenas dois conseguiram posteriormente um emprego formal no setor, segundo Miguel Marquez, técnico de laboratório de 62 anos que trabalhou na companhia durante duas décadas. Os demais passaram a procurar outras formas de renda, inclusive como motoristas de aplicativos.

Indústria reclama de competição com importados

O governo argentino sustenta que a abertura comercial é necessária para beneficiar os consumidores e reduzir o custo de produtos no país. O ministro da Economia, Luis Caputo, afirma que a política econômica deve priorizar os consumidores e não proteger empresas específicas.

“Fazer os argentinos pagarem por produtos de qualidade inferior duas, quatro, dez vezes mais caros me parece imoral e injusto”, declarou Caputo ao defender a concorrência estrangeira.

Representantes da indústria, porém, argumentam que as condições de competição não são equilibradas. Entre os fatores apontados estão a valorização do peso argentino, que reduz a competitividade dos fabricantes nacionais, além de juros e impostos considerados elevados.

A retração do consumo doméstico acrescenta outra dificuldade. Com menor poder de compra, os argentinos passaram a reduzir despesas, afetando diretamente setores que dependem das vendas internas.

Uma pequena fabricante de cordas para instrumentos musicais localizada nos arredores de Buenos Aires, a Martin Blunt, precisou reduzir a jornada para quatro dias por semana diante da queda da demanda.

Para Gloria Aparicio, codiretora da empresa, a instabilidade profissional passou a pesar sobre os funcionários. Segundo ela, qualquer comunicação da direção sobre o futuro da companhia provoca apreensão entre os trabalhadores.

O cenário coloca a indústria argentina diante de um dos principais desafios do programa econômico de Milei: encontrar um ponto de equilíbrio entre a abertura do mercado, a redução de custos para os consumidores e a capacidade das empresas nacionais de sobreviver em um ambiente de maior concorrência internacional.