
O ano de 2026 chega com um desafio que o Brasil já conhece, mas ainda não enfrentou com a seriedade necessária: transformar a igualdade racial em política de Estado permanente, efetiva e mensurável. Não se trata de um tema setorial, identitário ou restrito a um grupo específico. Trata-se de um projeto de país. Falo com a experiência de quem já esteve à frente dessa agenda no governo federal e conhece, por dentro, os limites das políticas frágeis e os ganhos concretos das políticas estruturantes.
Os dados continuam revelando uma realidade incômoda. A violência letal segue atingindo de forma desproporcional a população negra, especialmente jovens. A cada ano, os números se repetem com pequenas variações, mas com a mesma mensagem central: há um padrão persistente de exclusão e vulnerabilidade que não pode ser explicado por fatores individuais. Quando um grupo social morre mais cedo, ganha menos, tem menos acesso a serviços de qualidade e é mais frequentemente alvo da força do Estado, estamos diante de um problema sistêmico.
No mercado de trabalho, a desigualdade racial permanece como uma das principais engrenagens da desigualdade social brasileira. Pessoas negras continuam ocupando, majoritariamente, postos mais precarizados, com menor remuneração e menor proteção. A diferença de rendimentos entre trabalhadores negros e não-negros não é residual; é estrutural. Isso impacta diretamente o acesso à moradia digna, à educação de qualidade, à saúde e à mobilidade social. Em outras palavras, o ponto de partida não é o mesmo — e insistir em ignorar isso não produz igualdade, apenas perpetua a injustiça.
A segurança pública é outro campo em que 2026 exigirá coragem política. A juventude negra segue sendo o principal alvo da violência letal, seja por conflitos armados, seja por ações policiais mal conduzidas ou por políticas de prevenção insuficientes. Um país que aceita como normal a morte recorrente de parte de sua juventude está, na prática, abrindo mão do próprio futuro. Combater o racismo institucional nesse campo não significa enfraquecer a lei, mas qualificá-la, torná-la mais justa, mais eficiente e mais legítima.
No cenário internacional, o debate racial ganha novo fôlego. A nova década internacional dedicada aos afrodescendentes recoloca o tema no centro das agendas globais de direitos humanos e desenvolvimento. Isso traz oportunidades e responsabilidades. O Brasil, que abriga uma das maiores populações negras fora da África, não pode se limitar a discursos bem-intencionados. Precisa apresentar resultados concretos, políticas contínuas e compromissos verificáveis. O mundo observa, compara e cobra.
O grande desafio de 2026 será sair da lógica da exceção e entrar na lógica da permanência. Políticas de promoção da igualdade racial não podem depender da vontade isolada de um gestor ou da sensibilidade de um governo. Precisam de orçamento definido, metas claras, indicadores públicos e integração entre União, estados e municípios. Precisam, sobretudo, ser avaliadas pelo impacto real na vida das pessoas, e não apenas pela quantidade de programas anunciados.
Há também um ponto central que precisa ser dito com clareza: a luta por igualdade racial não é responsabilidade exclusiva da população negra. Pessoas não-negras precisam assumir esse compromisso como parte de um projeto coletivo de país. Não por favor, culpa ou concessão, mas por entendimento racional de que sociedades profundamente desiguais são mais violentas, menos produtivas e mais instáveis. O racismo não prejudica apenas quem o sofre diretamente; ele compromete o desenvolvimento nacional.
Essa corresponsabilidade se expressa no cotidiano. Está na escola que educa para o respeito e não tolera discriminação. Está na empresa que revê critérios de contratação e promoção para garantir oportunidades reais. Está no serviço público que incorpora o recorte racial no planejamento e na avaliação de políticas. Está na política institucional que trata o tema com seriedade técnica, sem oportunismo e sem negação.
Em 2026, o Brasil não precisa de novos slogans ou promessas genéricas. Precisa de maturidade institucional para enfrentar o racismo como um problema concreto, com soluções concretas. Precisa reduzir mortes evitáveis, ampliar oportunidades, garantir direitos e romper ciclos históricos de exclusão. Igualdade racial não é concessão nem privilégio: é condição básica para uma democracia plena e para um país que deseja crescer de forma justa e sustentável.
Se negros e não-negros compreenderem que esse desafio é comum, 2026 pode marcar um ponto de inflexão. Caso contrário, seguirá sendo apenas mais um ano em que reconhecemos o problema, mas adiamos a solução. O futuro cobrará essa escolha.