Juvenal Araújo: “Acidentes de trabalho em 2024: quando a cor da pele aumenta o risco”

O que o AEAT 2024 revela sobre a vulnerabilidade dos trabalhadores negros no mercado de trabalho brasileiro

Juvenal Araújo: “Acidentes de trabalho em 2024: quando a cor da pele aumenta o risco”

O Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEAT) 2024, divulgado pelo Ministério da Previdência Social, colocou em números uma realidade que muitos trabalhadores já conhecem na pele: a população negra continua sendo a mais exposta aos riscos no ambiente laboral. Em 2024, entre 787,4 mil acidentes com informação de raça ou cor, 417,6 mil atingiram pessoas pretas e pardas, o que corresponde a 53% dos registros.
Para entender o peso desse número, é preciso olhar o quadro completo. O AEAT mostra que, em 2024, foram registrados 360.907 acidentes com trabalhadores brancos (45,8%), 347.053 com pardos (44%), 70.508 com pretos (9%), além de registros com amarelos e indígenas em proporções bem menores. Somando todos os casos – incluindo aqueles sem informação de raça – o país chegou a 834.048 acidentes de trabalho no ano. De 2014 a 2024, houve aumento de 10,6% na quantidade total de acidentes, o que confirma uma tendência de crescimento, especialmente a partir de 2021.
Mas o dado mais preocupante não é apenas a participação da população negra, e sim o ritmo em que esses acidentes crescem. Entre 2023 e 2024, os acidentes envolvendo trabalhadores brancos aumentaram 9,7%. Já entre pretos e pardos, o aumento foi de quase 16%, ou seja, o avanço é significativamente mais rápido justamente no grupo historicamente mais vulnerável.
Alguém pode argumentar que a população negra é maioria no país e, por isso, seria “natural” que os números se aproximassem de 50%. De fato, segundo o Censo 2022, pretos e pardos somam cerca de 55,5% da população brasileira. Porém, quando os acidentes crescem mais entre negros do que entre não negros e se concentram em ocupações mais perigosas e precárias, não estamos só diante de uma proporção demográfica: estamos diante de um padrão de desigualdade.
Os próprios estudos sobre mercado de trabalho mostram que a população negra está mais presente na informalidade, em postos com menor proteção social, menor remuneração e mais exposição a riscos físicos. Dados oficiais apontam que homens e mulheres negros têm taxas de informalidade e subutilização maiores do que os não negros, revelando uma inserção mais frágil e insegura no mundo do trabalho. Pesquisas de órgãos como Ipea reforçam que essa precariedade não é episódica: trata-se de uma característica estrutural da forma como a força de trabalho negra é absorvida pela economia brasileira.
Quando cruzamos esse cenário histórico com os dados do AEAT, a mensagem é clara: não é coincidência que trabalhadores negros concentrem a maioria dos acidentes. Eles estão, em grande medida, nos setores onde o risco é maior e a proteção é menor. Em 2024, por exemplo, o anuário mostra que atividades como atendimento hospitalar, comércio varejista e transporte rodoviário de cargas estão entre as que mais registram acidentes de trabalho. Não por acaso, são segmentos com forte presença de trabalhadores negros em funções operacionais, muitas vezes em jornadas extensas, com pressão por produtividade e nem sempre com todas as normas de segurança respeitadas.
Há também um elemento de gravidade que nem sempre aparece nos números gerais: os desfechos desses acidentes. Estudos da área de saúde do trabalhador apontam que a mortalidade e a perda de anos potenciais de vida por acidentes de trabalho são maiores entre trabalhadores não brancos, com destaque para pretos e pardos, especialmente entre aqueles com menor escolaridade. Em outras palavras, quando o acidente acontece, o impacto na vida da população negra tende a ser mais duro: mortes mais precoces, incapacidades permanentes e maior dificuldade de retomada da renda.
Dizer que os trabalhadores negros foram “os mais impactados” pelo aumento de acidentes em 2024 não é uma frase de efeito, é uma conclusão sustentada pelos dados. Eles são maioria entre os acidentados, tiveram crescimento mais acelerado de ocorrências em relação aos brancos e seguem ocupando os postos de maior risco e menor proteção. Quando a cor da pele é um marcador de quem está nas funções mais perigosas, quem acessa menos equipamentos de proteção, quem recebe menos treinamento e quem tem menos estabilidade, o acidente deixa de ser apenas um evento fortuito e passa a revelar a forma como o país organiza seu mercado de trabalho.
Não se trata de transformar qualquer debate em disputa ideológica. O ponto aqui é de responsabilidade pública e privada. A Constituição brasileira garante a todos o direito a um ambiente de trabalho seguro e saudável. Se os números mostram que esse direito não está sendo garantido de forma igualitária, especialmente para a população negra, há um problema de gestão, de fiscalização e de prioridade nas políticas de prevenção.
O AEAT 2024 trouxe um avanço importante ao publicar, pela primeira vez, tabelas segmentadas por raça/cor e nível de escolaridade. Isso permite enxergar o que por muitos anos foi tratado como algo neutro. Quando se mede, fica mais difícil fingir que não existe desigualdade. Mas medir não basta. É preciso agir a partir desse recorte. Isso significa incorporar a questão racial nas políticas de saúde e segurança do trabalho, nas metas de fiscalização, nas ações de vigilância em saúde e nas estratégias de responsabilidade social das empresas.
Na prática, três caminhos são urgentes. Primeiro, direcionar políticas de prevenção e fiscalização para os setores e territórios onde há maior concentração de trabalhadores negros e maior incidência de acidentes, com metas claras e transparência nos resultados. Segundo, fortalecer a formalização e a proteção social, porque a informalidade – que atinge de forma desproporcional a população negra – é porta de entrada para acidentes sem registro, sem CAT e sem acesso a benefícios. Terceiro, incluir o tema do racismo e da desigualdade racial na formação de gestores, técnicos de segurança, Cipas e sindicatos, para que a discussão de risco não ignore quem está mais exposto a ele.
Os dados do AEAT 2024 não são apenas estatística: são histórias de trabalhadores que saem de casa e não voltam da mesma forma, famílias que perdem renda de um dia para o outro e sonhos interrompidos em hospitais, canteiros de obra, estradas e fábricas. Quando a maioria desses rostos tem a mesma cor, o país não pode tratar o problema como algo natural.
Reconhecer que trabalhadores negros foram os mais impactados pelo aumento dos acidentes de trabalho em 2024 é o primeiro passo. O passo seguinte, e mais difícil, é assumir que enfrentar esse quadro exige mais do que campanhas genéricas de prevenção: exige olhar para a cor da pele não como um detalhe, mas como um fator central na forma como o risco é distribuído no mundo do trabalho brasileiro. Enquanto isso não acontecer, os números vão continuar confirmando o que a realidade já grita há muito tempo.