Michelle Bolsonaro pode deixar o PL e se filiar ao Republicanos após desgaste com família e partido
Articulação liderada por Damares Alves busca atrair a senadora eleita para o Republicanos em meio a divergências com os filhos de Jair Bolsonaro e a direção do PL

Uma articulação nos bastidores da política brasileira tenta viabilizar a saída da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) do Partido Liberal e sua filiação ao Republicanos. O movimento ocorre após uma série de divergências envolvendo integrantes da família do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e a direção nacional da legenda, comandada por Valdemar Costa Neto.
A informação foi divulgada nesta terça-feira (3) pelo jornalista Lauro Jardim, do jornal O Globo. Segundo a coluna, uma das principais responsáveis pelas conversas é a senadora Damares Alves (Republicanos), amiga próxima de Michelle e integrante de seu círculo de confiança política.
Eleita senadora pelo Distrito Federal em outubro, Michelle se prepara para assumir seu primeiro mandato parlamentar em fevereiro de 2027. A possibilidade de mudança partidária surge em um momento de reorganização das lideranças conservadoras, após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno das eleições presidenciais.
De acordo com um interlocutor que acompanha as negociações e foi ouvido por O Globo, Michelle estaria insatisfeita com o comportamento dos filhos de Jair Bolsonaro e com a condução do PL por Valdemar Costa Neto. O relato indica que as divergências internas contribuíram para abrir espaço às conversas sobre uma eventual transferência para outra legenda.
A possibilidade de filiação ao Republicanos não é recente. Em julho, durante uma crise pública envolvendo Michelle e Flávio Bolsonaro, dirigentes do partido já haviam demonstrado interesse em receber a ex-primeira-dama.
Na ocasião, o presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira (Republicanos), declarou que Michelle seria bem recebida pela legenda, embora tenha ressaltado que não existia um acordo formal para a mudança. As articulações também envolveram Damares Alves e a ex-ministra Cristiane Britto, integrantes do mesmo grupo político.
O episódio que intensificou as especulações ocorreu durante as negociações eleitorais no Ceará, quando Michelle entrou em conflito com Flávio Bolsonaro em razão da aproximação do PL com o ex-governador Ciro Gomes.
A ex-primeira-dama criticou publicamente a articulação e relatou ter sido desrespeitada pelo enteado durante uma conversa telefônica. As declarações provocaram repercussão entre lideranças bolsonaristas e expuseram diferenças sobre a condução das alianças partidárias.
Damares manifestou solidariedade a Michelle naquele momento. A senadora também passou a defender maior respeito às lideranças femininas do campo conservador diante das disputas internas que marcaram a preparação das eleições.
Apesar das divergências, a possibilidade de saída do PL chegou a ser descartada publicamente em julho. Na ocasião, Damares afirmou ao Correio Braziliense que Michelle permaneceria no partido do qual Jair Bolsonaro é presidente de honra. A retomada das articulações, relatada agora por O Globo, representa uma nova movimentação em torno do futuro partidário da ex-primeira-dama.
A eleição de outubro ampliou o peso político de Michelle nas negociações. A ex-primeira-dama conquistou uma vaga no Senado pelo Distrito Federal em sua primeira disputa eleitoral, com votação expressiva, consolidando sua presença institucional no Congresso Nacional.
A eventual filiação ao Republicanos colocaria Michelle na mesma legenda de Damares Alves e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), outro integrante de destaque do campo conservador.
O partido também possui representação relevante na Câmara dos Deputados e participa das negociações para a formação de maiorias parlamentares no próximo mandato presidencial.
O crescimento da influência política de Michelle ocorreu paralelamente às divergências com integrantes do núcleo familiar de Bolsonaro. Durante as eleições, a ex-primeira-dama manteve uma atuação própria em diferentes estados e participou de campanhas de candidatos aliados.
A relação com Flávio voltou a ganhar atenção após a derrota presidencial do senador e sua viagem aos Estados Unidos. Na sexta-feira (30), Michelle divulgou uma manifestação em nome de Jair Bolsonaro na qual pediu respeito a aliados que vinham recebendo críticas dentro do próprio campo conservador.
Entre os nomes defendidos estavam Damares Alves, Tarcísio de Freitas, o deputado Nikolas Ferreira (PL) e o pastor Silas Malafaia.
A publicação afirmou que o ex-presidente reconhecia o empenho dos aliados na campanha de Flávio e lamentava manifestações que atribuíam responsabilidades individuais pela derrota eleitoral. Michelle também pediu que divergências internas não fossem utilizadas para ampliar os conflitos entre integrantes do grupo político. BOL
A eventual saída da senadora eleita representaria uma mudança importante na composição do PL, partido que reúne integrantes da família Bolsonaro e terá a maior bancada da Câmara dos Deputados na legislatura que começa em 2027.
No Republicanos, Michelle poderia desenvolver sua atuação parlamentar ao lado de Damares, com quem mantém uma relação política construída desde o governo de Jair Bolsonaro.
A transferência também exigiria a observância das regras eleitorais sobre mudança de partido. Como Michelle foi eleita para o Senado, cargo majoritário, a legislação não aplica automaticamente as mesmas restrições de fidelidade partidária previstas para deputados e vereadores.
Até o momento, porém, não houve anúncio oficial de desfiliação do PL nem confirmação de que Michelle tenha decidido ingressar no Republicanos. As informações disponíveis tratam de conversas conduzidas por interlocutores políticos e do interesse manifestado anteriormente por dirigentes da legenda.
A articulação ocorre enquanto os partidos se reorganizam para a próxima legislatura e definem suas estratégias de relacionamento com o governo Lula. A eventual mudança de Michelle Bolsonaro dependerá do avanço das negociações e de uma decisão da própria senadora eleita.