
A temperatura política em Minas Gerais subiu. Em meio à tentativa do governador Romeu Zema de se projetar nacionalmente como símbolo de combate à criminalidade, as forças de segurança do Estado romperam de vez o silêncio e passaram a denunciar aquilo que classificam como um sucateamento generalizado do setor. O clima entre policiais civis, militares, penais e bombeiros é de revolta e o descontentamento ameaça atingir em cheio o projeto eleitoral do governador e do vice, Mateus Simões, para 2026.
O desconforto, que vinha crescendo nos bastidores, ganhou corpo após articulações de Zema nas redes sociais, onde tenta vincular sua imagem ao endurecimento contra o crime organizado. Enquanto isso, lideranças das corporações afirmam que a realidade é bem diferente da propaganda digital. Entre os mais duros críticos está o presidente do Sindicato dos Servidores da Polícia Civil, Wemerson Oliveira, que acusa o governador de tentar se aproximar de uma categoria que, segundo ele, vem sendo abandonada há anos. “O teto do Zema não é nem de vidro, é de casca de ovo. Ele faz propaganda em cima das forças de segurança, mas sucateia a Polícia Civil sistematicamente”, disparou.
Segundo o Sindipol, a corporação opera com déficit elevado de servidores que recebem um dos piores salários do país. A precariedade estrutural é descrita como alarmante: viaturas sem rádio, computadores com mais de 16 anos de uso e ausência de investimentos tecnológicos fazem parte do cotidiano da instituição que é responsável por investigar o crime organizado.
Na Polícia Militar e no Corpo de Bombeiros, o discurso é menos explosivo, mas igualmente crítico. O presidente da Associação dos Oficiais das corporações, coronel Ailton Cirilo, afirma que o governo divulga resultados que são frutos de políticas construídas ao longo de vários anos, e não exclusivamente da gestão atual. Ele alerta que, apesar dos indicadores, tanto a PM quanto o Corpo de Bombeiros operam com déficit expressivo de efetivo e precisam urgentemente de recomposição salarial, concursos regulares e modernização estrutural. Para Cirilo, as corporações só conseguirão entregar um serviço adequado com condições mínimas de trabalho algo que, segundo ele, está longe da realidade atual.
A Polícia Penal, por sua vez, vive um dos cenários mais tensos. Os servidores cobram um reajuste de 44% para recompor perdas inflacionárias, denunciam unidades superlotadas e afirmam que o efetivo é insuficiente para lidar com a crescente demanda do sistema prisional. O presidente do Sindppen-MG, Jean Otoni, acusa o governo de rebaixar o status da corporação ao mantê-la vinculada à Secretaria de Justiça, o que, segundo ele, retira direitos, reduz autonomia e impede a equiparação com outras forças. “Estamos fazendo mais com menos. O governo não reconhece nossa autoridade e nos trata como um departamento menor”, diz.
A crise ganhou contornos políticos visíveis depois que lideranças da segurança pública ligadas ao Partido Liberal passaram a rejeitar publicamente uma eventual aliança com Mateus Simões para 2026. A avaliação é de que o desgaste entre as corporações e o governo já extrapolou a pauta corporativa e se tornou um obstáculo eleitoral. Especialistas apontam que o impacto pode crescer, especialmente se a disputa presidencial for apertada e exigir apoio massivo das categorias.
O cientista político Adriano Cerqueira observa que, por ora, o desgaste é percebido principalmente em Minas, mas não descarta uma repercussão nacional caso Zema avance na corrida eleitoral. Ele lembra que o governo costuma apresentar indicadores positivos como defesa, mas tais números são contestados por sindicatos. O Sindipol, por exemplo, acusa o Estado de manipular estatísticas e registrar crimes graves como ocorrências de menor impacto, alterando artificialmente os índices de criminalidade.
Apesar das críticas, aliados de Zema minimizam a insatisfação e afirmam que parte da categoria sempre foi contrária ao governo desde o primeiro dia. Para eles, as ações de valorização implementadas desde 2019 e o aumento de investimentos seriam suficientes para responder às reivindicações.
O governo, por sua vez, afirma que reconhece a importância dos profissionais e que tem feito esforços contínuos para dialogar e atender demandas dentro das limitações fiscais. Cita reajustes concedidos desde 2020, investimentos em frota, infraestrutura, tecnologia, operações integradas e expansão dos quadros das polícias, bombeiros e polícia penal. A gestão também atribui parte das conquistas à integração entre as instituições e à modernização de ações de inteligência.
No entanto, a distância entre o discurso oficial e a realidade apontada pelas corporações mantém as tensões elevadas. As denúncias de sucateamento, somadas à sensação de abandono vivida por milhares de servidores, marcam o início de um confronto direto entre o governo e uma das categorias mais sensíveis do Estado. A avaliação comum entre os policiais civis, militares, penais e bombeiros é clara: o governo que tenta se vender como símbolo de segurança pública, segundo eles, deixou a própria segurança pública desamparada.
Com o ano eleitoral se aproximando, a pressão das corporações se intensifica e promete se tornar um dos maiores desafios políticos da gestão Zema desde que assumiu o Palácio Tiradentes.