Produtora de “Dark Horse” usou emendas em projetos fraudulentos, aponta PF

A Polícia Federal identificou indícios de irregularidades na utilização de recursos públicos destinados a projetos sociais executados pelo Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade ligada à produtora do filme “Dark Horse”. Segundo a investigação, R$ 2 milhões provenientes de emendas parlamentares teriam sido empregados em contratos considerados fraudulentos e posteriormente relacionados a empresas envolvidas na produção da cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro.
O principal repasse investigado foi destinado pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) ao instituto presidido por Karina da Gama, responsável pela produção de “Dark Horse”. Os recursos foram direcionados a dois projetos anunciados para Pirassununga, no interior de São Paulo: “Jovem Empreendedor”, voltado a estudantes da rede pública, e “Lutando pela Vida”, que previa aulas de jiu-jitsu para crianças.
De acordo com documentos analisados pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União, o ICB não teria demonstrado capacidade operacional suficiente para executar diretamente as iniciativas. A investigação aponta ainda que a organização subcontratou empresas para realizar os serviços e identificou movimentações financeiras posteriores envolvendo a Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”.
Os elementos fazem parte da investigação que resultou na Operação Make Up, deflagrada pela PF nesta quinta-feira (10), com mandados de busca e apreensão contra Mario Frias, Karina da Gama e outros investigados. A decisão que autorizou a operação foi proferida pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal.
No caso do projeto “Jovem Empreendedor”, a investigação encontrou uma série de inconsistências. A iniciativa previa atividades de letramento digital e empreendedorismo para 2.250 alunos do 4º e 5º ano da rede municipal de Pirassununga. Diretores de escolas e moradores ouvidos durante a apuração, entretanto, afirmaram não ter conhecimento da realização do projeto.
A PF também identificou relações entre empresas contratadas pelo instituto e pessoas que mantinham vínculos políticos ou profissionais com Mario Frias. Duas editoras associadas ao empresário Heric Dias receberam R$ 700 mil pela execução do projeto. Posteriormente, uma empresa também ligada ao empresário transferiu R$ 750 mil para a Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”.
Outro ponto levantado pelos investigadores envolve três orçamentos apresentados para a compra de material didático. Embora atribuídos a empresas diferentes, os documentos apresentavam estrutura, etapas e valores semelhantes. A análise dos metadados realizada pela CGU indicou que os arquivos teriam sido produzidos pela mesma pessoa, no mesmo dia, com apenas 13 minutos de diferença entre eles.
As videoaulas previstas no projeto também apresentaram problemas. Segundo a investigação, o conteúdo foi disponibilizado apenas em 31 de maio de 2026, fora do cronograma estabelecido. Em julho, os vídeos registravam apenas sete visualizações, número considerado incompatível com a previsão de atendimento de milhares de estudantes.
A apuração também questiona o pagamento de R$ 50 mil por serviços de publicidade. A empresa contratada pertencia a uma pessoa que, na época, trabalhava para o próprio instituto e ocupava uma posição em outra entidade ligada à presidente do ICB. Os investigadores afirmam não ter encontrado evidências suficientes de que a divulgação prevista tenha sido efetivamente realizada.
No projeto “Lutando pela Vida”, que previa aulas de jiu-jitsu para crianças, a PF encontrou outras inconsistências. Entre os gastos analisados estão R$ 457 mil pagos por quimonos, uniformes, faixas e tatames. Segundo a investigação, parte dos materiais não teria sido entregue.
Um documento apresentado pelo instituto registrava o recebimento parcial dos produtos. A empresa responsável pelo fornecimento, contudo, teria informado à CGU que os itens não haviam sido entregues. Em outro caso, uma empresa comprovou a venda de 120 tatames ao instituto por R$ 58,8 mil.
A investigação também identificou a contratação de uma pessoa que havia realizado uma doação de R$ 4 mil para a campanha de Mario Frias em 2022. Segundo a PF, o contratado havia trabalhado anteriormente na equipe do deputado e constituído uma empresa individual pouco antes de ser contratado pelo instituto.
Os investigadores questionam ainda a comprovação da execução do projeto. O ICB apresentou fichas de matrícula, registros de frequência, fotografias e relatório parcial, mas a CGU considerou a documentação insuficiente para comprovar a efetiva realização das atividades. As planilhas de presença, por exemplo, teriam sido preenchidas pela própria equipe responsável pelo projeto.
Além do Instituto Conhecer Brasil, a Academia Nacional de Cultura, também comandada por Karina da Gama, aparece na investigação. A entidade recebeu a indicação de R$ 2,6 milhões em emendas para a produção da série documental “Heróis Nacionais”. Os recursos, entretanto, não chegaram a ser efetivamente utilizados em razão de impedimentos técnicos e normativos.
A investigação também questiona a destinação territorial de parte das emendas, uma vez que alguns parlamentares responsáveis pelos recursos representavam outros estados, enquanto os projetos estavam previstos para São Paulo.
Diante dos elementos reunidos no caso, Flávio Dino determinou a suspensão das atividades econômicas do Instituto Conhecer Brasil e da Academia Nacional de Cultura. A decisão aponta indícios de que as entidades poderiam ter sido utilizadas como instrumentos para a movimentação de recursos relacionados ao grupo investigado.
Mario Frias nega irregularidades e criticou a operação. Em publicação nas redes sociais, o deputado classificou a ação como uma “cortina de fumaça em ano de eleição” e afirmou que não havia mandado de prisão contra ele. O parlamentar também defendeu a destinação das emendas e afirmou que sua defesa tenta obter acesso integral à investigação.
Os demais envolvidos citados no caso também contestam as suspeitas. Parlamentares relacionados às emendas destinadas à Academia Nacional de Cultura negaram qualquer intenção de desvio dos recursos e afirmaram que os valores tinham como finalidade a produção de “Heróis Nacionais”. Um dos parlamentares declarou ainda que, diante da não execução do projeto, solicitou o cancelamento da emenda e o redirecionamento dos recursos para um hospital.
As investigações seguem em andamento e deverão apurar o destino dos recursos, a efetiva execução dos projetos e eventual conexão entre os repasses públicos e o financiamento de “Dark Horse”.