Produtora de filme de Bolsonaro é alvo de ação da Polícia Civil em SP

A Polícia Civil de São Paulo realizou nesta segunda-feira, 1º de junho, uma operação contra a Go UP Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, filme sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro. A ação também teve como alvos um endereço ligado à empresária Karina Ferreira da Gama, dona da produtora, a sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia da Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil, entidade presidida por Karina.
Jair Bolsonaro (PL) é retratado no longa-metragem “Dark Horse”, produção que ganhou repercussão política nas últimas semanas após a divulgação de informações sobre seu financiamento. A operação desta segunda, porém, está ligada a outra frente de investigação: um contrato firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a gestão municipal de São Paulo para fornecimento de Wi-Fi gratuito em comunidades e áreas da capital.
Segundo a Polícia Civil, a apuração mira suspeitas de frustração do caráter competitivo de procedimento licitatório, fraude na execução de contrato administrativo e emprego irregular de verbas ou rendas públicas. A investigação foi aberta a partir de requerimento do Ministério Público e recebeu autorização da Vara de Garantias do Tribunal de Justiça de São Paulo.
O contrato investigado envolve o programa WiFi Livre SP e tem valor de R$ 108 milhões. A linha de investigação aponta suspeita de contratação irregular, possível superfaturamento e pagamentos por serviços que não teriam sido prestados de forma adequada. Os investigadores também apuram se parte dos recursos públicos teria sido desviada para financiar atividades relacionadas à produção do filme sobre Bolsonaro.
A Polícia Civil afirma que elementos de inteligência financeira levantados até agora indicam possível financiamento cruzado ilícito entre o Instituto Conhecer Brasil e a Go UP Entertainment. A suspeita é de que recursos ligados ao contrato público tenham circulado por empresas e organizações conectadas à investigada, em um arranjo que poderia caracterizar confusão patrimonial e lavagem de valores desviados do erário municipal.
Durante a operação, foram cumpridos mandados de busca e apreensão para recolher documentos físicos e digitais, equipamentos eletrônicos, registros financeiros e outros materiais que possam ajudar no avanço das investigações. Não houve prisões. Segundo a Polícia Civil, o Instituto Conhecer Brasil é o principal alvo da apuração.
A Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB), informou em nota que colabora com as investigações em andamento e segue à disposição das autoridades. A gestão municipal afirmou que já havia prestado informações e que todo o material requisitado é de acesso público por meio da prestação de contas do município.
A administração também declarou que a contratação do Instituto Conhecer Brasil seguiu os princípios da legalidade, transparência e economicidade. Segundo a Prefeitura, dos 3.200 pontos de Wi-Fi contratados, apenas 52 estavam fora do ar nesta segunda-feira e passavam por manutenção.
A investigação, no entanto, questiona os valores envolvidos no contrato. Segundo a Folha de S.Paulo, cada ponto de Wi-Fi contratado por meio do instituto teria custo de R$ 1.800, enquanto a Prodam, empresa pública municipal de tecnologia, prestaria serviço semelhante por valores menores, com custo de R$ 230 para implantação por ponto e R$ 306 para manutenção mensal.
Karina Ferreira da Gama ainda não havia se manifestado sobre a operação desta segunda-feira até a publicação da reportagem original. Em declarações anteriores, a empresária negou que “Dark Horse” tenha recebido recursos públicos ou privados de origem brasileira e afirmou que a contratação com a Prefeitura de São Paulo não tem relação com o filme.
O caso ganhou dimensão nacional porque “Dark Horse” passou a ser associado ao entorno político do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e pré-candidato à Presidência, pediu apoio financeiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, para viabilizar a produção. O Intercept Brasil revelou repasses milionários ligados ao projeto, e a Polícia Federal também apura se parte desses recursos teria sido usada para financiar despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP) é citado em uma frente paralela de apuração da Polícia Federal, que investiga a possível destinação de recursos relacionados ao filme para gastos do ex-deputado no exterior. Até o momento, as investigações seguem em andamento e não há conclusão definitiva sobre responsabilidade criminal dos envolvidos.
A operação reforça o desgaste em torno do projeto cinematográfico bolsonarista, apresentado por aliados como uma produção destinada a exaltar a trajetória do ex-presidente. O que começou como uma iniciativa de propaganda política agora aparece ligado a suspeitas envolvendo contratos públicos, entidades privadas, empresas de produção audiovisual e movimentações financeiras sob análise das autoridades.
O episódio também amplia a pressão sobre a direita bolsonarista em meio à pré-campanha de 2026. Enquanto tenta se apresentar como alternativa ao governo Lula, o grupo ligado ao ex-presidente passa a lidar com questionamentos sobre financiamento, transparência e possíveis conexões entre dinheiro público, estruturas privadas e projetos de imagem política.
Para o eleitor que rejeita tanto o aparelhamento petista quanto os métodos da direita radical, o caso mostra a importância de instituições funcionando com independência e rigor. Investigações sobre contratos públicos precisam avançar sem blindagem política, sem uso eleitoral seletivo e com respeito ao devido processo legal. O país precisa de transparência, responsabilidade e uma política que não trate o Estado como instrumento de propaganda de governo ou de culto pessoal.
As diligências continuam, e os materiais apreendidos serão analisados pela Polícia Civil. A partir dos próximos passos da investigação, o Ministério Público e a Justiça poderão avaliar se há elementos para novas medidas contra os envolvidos.