
O governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) ampliou de forma significativa, em 2025, o volume de emendas voluntárias destinadas a prefeituras e entidades indicadas por deputados do PT na Assembleia Legislativa de São Paulo. O crescimento ultrapassou 70% em relação ao ano anterior e levou a bancada petista a se tornar a quarta sigla mais atendida pelo Palácio dos Bandeirantes, mesmo ocupando oficialmente o campo da oposição.
Os repasses somaram R$ 143 milhões, colocando o PT à frente de partidos que integram a base do governador, como União Brasil, PSD, MDB e Podemos. Diferentemente das emendas impositivas, os recursos voluntários não têm execução obrigatória e dependem exclusivamente da decisão do Executivo estadual, o que amplia o peso político da escolha.
O avanço chamou atenção nos bastidores da Alesp. Aliados do próprio governador avaliam, reservadamente, que a liberação dos recursos está relacionada à eleição da Mesa Diretora da Assembleia, ocorrida em março do ano passado. Na ocasião, o presidente da Casa, André do Prado (PL), foi reconduzido ao cargo com apoio da bancada do PT, que passou a ocupar a 1ª Secretaria.
O governo do Estado nega qualquer acordo político. Em nota, a Secretaria de Governo e Relações Institucionais afirmou que o pagamento das emendas segue critérios técnicos, legais e de representatividade das bancadas, além do fluxo orçamentário, já que indicações feitas em um exercício podem ser executadas apenas no ano seguinte.
O líder do PT na Alesp, deputado Donato, também rejeita a leitura política e sustenta que o crescimento está ligado ao tamanho da bancada. A Federação PT-PCdoB é atualmente a segunda maior da Assembleia, com 18 parlamentares. Segundo ele, parte das emendas indicadas em 2024 acabou sendo paga apenas em 2025.
Ainda assim, os números expõem uma assimetria incômoda para partidos aliados do governo. O PP, por exemplo, recebeu quatro vezes menos recursos do que o PT, mesmo integrando formalmente a base de apoio a Tarcísio. O presidente estadual da legenda, deputado federal Maurício Neves, classificou os dados como, no mínimo, estranhos e cobrou critérios mais claros e equilíbrio na distribuição.
Na comparação com outras siglas, o contraste é evidente. Enquanto o PT avançou 72%, partidos como União Brasil cresceram pouco mais de 5% e o PSDB cerca de 7%. Já o PSD e o Podemos registraram retração significativa nos valores recebidos. Apenas Novo e PSB tiveram crescimento proporcional superior ao dos petistas, partindo, no entanto, de patamares muito mais baixos.
O episódio reacende o debate sobre o uso político das emendas voluntárias e evidencia as contradições do discurso público de enfrentamento ao PT adotado por setores do bolsonarismo. Para críticos do governo, como parlamentares do PL, a prática acaba fortalecendo justamente a principal força de oposição no Estado.
No fim, os números revelam um dado incontornável da política paulista: mesmo fora da base, o PT segue sendo um ator central no jogo institucional da Assembleia e, ao que indicam os repasses, também nas decisões orçamentárias do governo estadual.