Fabiano Lana: “Resultado da Colômbia é pior para o centro mundial do que para a esquerda”

Primeiro turno na Colômbia evidencia força de outsiders e desafios de centros políticos tradicionais na América Latina

Fabiano Lana: “Resultado da Colômbia é pior para o centro mundial do que para a esquerda”

O centro (aqui não se fala de ‘centrão’) não soube se adaptar a esse novo mundo e está sem lugar; resta o pálido consolo de seus votos decidirem o pleito final

A Colômbia passa por um fenômeno ocorrido recentemente na Argentina, no Chile, no Peru, nos EUA, em parte da Europa, e pode se verificar no Brasil pela terceira vez este ano: a disputa eleitoral de segundo turno para a Presidência se dá entre um candidato da centro-esquerda contra um da chamada direita mais radical. Na verdade, é algo que se espalha desde o advento das redes sociais na esfera política. Tem sido ruim para a esquerda, mais combatida e de maneira feroz. Mas tem sido péssimo para o centro e a centro-direita, hoje com dificuldades de apresentar candidatos competitivos. Pior do que enfrentados, os moderados são ignorados.

Neste domingo, 31, na Colômbia, o outsider Abelardo de la Espriella surpreendeu ao receber 43,7% dos votos e sair na frente no primeiro turno. O então favorito, Iván Cepeda, candidato do governo de esquerda, ficou com 40,9% dos votos. O nome de centro-direita, a senadora Paloma Valencia, do grupo do ex-presidente Álvaro Uribe, terminou em terceiro lugar com 6,9%. Os votos de Paloma irão definir as eleições.

Sobre as credenciais de Espriella, sabemos que é mais um que se apresenta como outsider da política. Tem como ídolos os presidentes dos EUA, Donald Trump, da Argentina, Javier Milei, e de El Salvador, Nayib Bukele. Pretende implodir acordos de paz com dissidentes de guerrilhas e das quadrilhas de narcotraficantes. No lugar, propõe uma aliança militar com os Estados Unidos e Israel. Difícil qualificá-lo como moderado. Seu adversário é filho de ex-dirigente do Partido Comunista, assinado em 1994.

Em todo o mundo, em especial na América Latina, mesmo derrotados em eleições majoritárias, a esquerda segue competitiva nesse tipo de pleito. Venceu no México e no Uruguai, por exemplo. Os nomes do centro, por sua vez, muitas vezes perdem o fôlego no meio do caminho e veem seus votos migrarem para opções com discurso mais contundente. Isso se conseguirem decolar.

É um fenômeno a ser decifrado. No caso dos moderados, trata-se de uma urgência a desvendar para não se tornarem irrelevantes. Uma hipótese é que a centro-esquerda conseguiu conservar, mesmo que seja apenas na retórica, certo ardor que ainda gera entusiasmo no eleitorado. Nem que seja pelo discurso de ricos contra pobres. A nova direita, por outro lado, tem nas redes o habitat natural e domina a nova linguagem. Há também certa esquerda identitária, ou os mais radicais, que não conseguem falar para além dos seus.

Um dilema do centro e da centro-direita é que os problemas de qualquer nação são complexos e a nova forma de comunicação eficaz exige um modo simples e direto para lidar com as questões que atormentam a sociedade: seja criminalidade, inflação, mudança nos valores, o que for. Quem mostra profundidade ou mesmo aposta em discussões com todos os lados, soa como ineficaz na disputa feérica sobre tempo e atenção.

No Brasil, o bolsonarismo soube lidar bem com esse espírito do tempo. A esquerda ainda depende da figura do presidente Lula, popular nos segmentos dependentes do Estado e dos que melhoraram de vida em suas gestões. De certa maneira, consegue viver de passado. Bolsonarismo e petismo souberam crescer nomeando os inimigos – e isso não é falsa simetria. Os demais ainda tateiam. Renan Santos, do Missão, parece dominar os mecanismos. Não se sabe se terá fôlego e velocidade para triunfar em 2026. Mas irá conseguir plantar uma semente.

Existe aquele dito que para todo problema complicado existe uma solução simples e errada. O trágico é que agora, para vencer eleições, é preciso apresentar o complexo de maneira fluente, elucidativa e, muitas vezes, no grito – mesmo que não seja verdade. O centro (aqui não se fala de “centrão”) não soube se adaptar a esse novo mundo e está sem lugar. Resta o pálido consolo de seus votos decidirem o pleito final, escolhendo o candidato que rejeitam menos, como aliás ocorreu no Brasil em 2022.

 Fabiano Lana

Fabiano Lana é formado em Comunicação Social pela UFMG e em Filosofia pela UnB, onde também tem mestrado na área. Foi repórter do Jornal do Brasil, entre outros veículos. Atua como consultor de comunicação. É autor do livro “Brasil acima da lucidez”, em que discute a política, a história, a cultura e a sociedade brasileira.