Thélio Caudinski: “Curto-circuíto geracional”

Não recomendo muito conclusões no dia seguinte a eleições, mas esta minha percepção tem me ocorrido há um bom tempo: a geração de políticos de 1988, herdeiros ou que estiveram na Constituínte, possui uma relação conflituosa com o atual eleitor, se não, um curto-circuíto. É o que as eleições 2026 deixam claro.
Ora, o País de hoje é resultado do que fizemos, especialmente há algumas décadas. O que sonhou em 1988 e fora concretizado nas letras da Constituição, estabeleceram os rumos do futuro do Brasil que, enfim, estamos vivendo. Da mesma forma, a classe política daquela época que inaugurava a democracia em nosso País, definiu a maneira de fazer política por muito tempo: instituiu costumes, tradições, modos, concepções, figuras e, inclusive, donos de currais.
Até 2014 podemos ver claramente o amplo domínio desta geração na política brasileira, seja com os próprios Constituíntes, seja com herdeiros, ou pessoas do grupo. E o modo de fazer política, também. Contudo, pouco a pouco, já neste meado, os efeitos das políticas tomadas no Brasil de 1988 até então produzia um novo pensamento, um novo conjunto de expectativas e sonhos da população com relação a eles mesmos e a conduta dos seus políticos.
O Brasil venceu, ainda nos anos 90, a mortalidade infantil, a extrema-pobreza, o fornecimento universal de saúde, entre outros serviços. E, uma vez resolvidos, passasse, ou deveria, a pensar e dedicar esforços para novas demandas. Contudo, o discurso político e o comportamento dos atores parecia, de fato, não ter entendido isso (ainda que a desigualdade brasileira imponha uma realidade diferente entre as regiões, tendo mortalidade infantil, ausência de água e comida em diversos lugares).
Concomitantemente, os grupos relacionados a estas lideranças políticas auferiram grandes e boas posições na sociedade, inclusive uma relação natural do poder. Como em qualquer país o Brasil erigiu a sua classe política, algumas já vinham desde antes, é verdade, e apenas tomaram um novo verniz, enquanto outras surgiram. E o cálculo do custo destas elites com os resultados na mesa começaram a ficar difusos com um novo elemento: as redes sociais.
Um novo palco de debate e, principalmente, de exposição moldou novamente a política. As redes sociais quebraram os canais oficiais de comunicação (ou pelo menos o domínio deles) que eram as TVs, os jornais, entre outros. Quem detinha a informação, em parte, detinha a verdade e o poder de influência do voto. A internet coloca diante de todos as opções políticas, as opiniões, os nomes, os rostos, os discursos… Tudo a vontade do eleitor, no tempo que ele quer e da forma que ele quer. E além disso, também envolve o eleitor de uma maneira que não existia antes, gameficando a relação e engajando a todos de maneira instantânea. Ao mesmo tempo, o perfil das novas lideranças passa a ser de repercussão do que é a realidade brasileira, do brasileiro real, deixando de liderar pelo exemplo.
A democracia brasileira contemporânea que ocorre fundamentada nos campos virtuais é fundamentada, inclusive, no entretenimento. O dia a dia do político em seu combate contra “o que está errado” ou “contra aquela turma do mal” além de engajar o eleitor diretamente, o envolver e fazê-lo como parte, também o entretém. É como um jogo da vida real. Curtir e fazer repercutir um vídeo de ataque é como somar pontos nesta disputa. Mais do que fazer o trabalho comum de político, legislar ou administrar, é importante atuar neste campo.
Mas a geração de 1988 não conseguiu navegar nestas novas águas. Envelheceram como um produto perde a sua validade. Não por incompetência, ou qualquer coisa negativa do tipo, apenas como o tempo e a entropia é inexorável. Também não significa que são inúteis, apenas que novos espaços precisam ser ocupados por eles, enquanto o espaço do Demagogo, na definição clássica de Weber, é ocupado por uma nova geração capaz de jogar este jogo ao vivo.
Definitivamente não é sobre polarização, PL ou PT, ou Bolsonaro e Lula, é sobre viabilidade eleitoral. Cada um a sua maneira, hoje, são os mais viáveis eleitoralmente e recebem o apoio por esta consequência. Os discursos, mais a direita ou a esquerda, são meras ferramentas. Tudo se trata de como se inserir nesta nova forma de disputa do poder e, enfim, ser viável.
Claro que esta discussão cria uma situação delicada: para alguns soa como se quiséssemos enterrar os bons políticos “do passado” em prol de uma turba bolsonarista. De modo algum. É entender o tempo e a função de cada um jogo político. De repente, com esta maturidade, podemos salvar inclusive aqueles que hoje sofrem a rejeição das urnas mas foram, amplamente, no passado, sucessos.