Transição em Minas vira crise: Cleitinho cobra transparência de Simões diante de déficit de R$ 10,5 bilhões

A transição de governo em Minas Gerais transformou-se em uma disputa pública entre o governador eleito Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o atual chefe do Executivo estadual, Mateus Simões (PSD). O motivo principal é a situação financeira do estado, que deverá encerrar 2026 com dificuldades de caixa e prevê um déficit orçamentário de R$ 10,51 bilhões para 2027, primeiro ano da próxima administração.
A tensão aumentou nesta quinta-feira, 15 de outubro, quando Cleitinho utilizou a tribuna do Senado Federal para cobrar transparência sobre as contas estaduais e advertir Simões contra decisões que possam comprometer os recursos disponíveis para o próximo governo.
Durante o pronunciamento, o senador pediu que o atual governador não tomasse medidas capazes de prejudicar a população mineira. Cleitinho também manifestou preocupação com a possibilidade de encontrar dificuldades financeiras logo nos primeiros meses de sua gestão.
O embate ocorre após a revisão da proposta orçamentária de Minas Gerais para 2027. O governo estadual elevou a estimativa de déficit de R$ 8,87 bilhões para R$ 10,51 bilhões, um aumento de aproximadamente 18,5%. Os valores constam de uma atualização enviada à Assembleia Legislativa e representam projeções de receitas e despesas, não um déficit já realizado.
Cleitinho, eleito no primeiro turno com 55,4% dos votos válidos, afirmou que pretende realizar auditorias em contratos, órgãos públicos e empresas estaduais ao assumir o Palácio Tiradentes. Entre as áreas mencionadas estão a infraestrutura rodoviária e a administração de recursos públicos.
O governador eleito também questionou a condução das contas durante as administrações de Romeu Zema (Novo) e Mateus Simões, que assumiu o Executivo estadual após a saída do antecessor.
As críticas foram respondidas por Simões, que acusou Cleitinho de transformar a discussão fiscal em um embate político. O atual governador afirmou que sua administração tem adotado medidas de controle das despesas e ampliado a transparência dos dados financeiros.
Um dos primeiros pontos de divergência foi o pagamento dos servidores estaduais. Cleitinho cobrou garantias de que os compromissos da atual gestão seriam quitados antes da transferência de poder, especialmente diante das informações sobre dificuldades de caixa previstas para janeiro.
Simões respondeu que os salários referentes ao período de sua administração serão pagos dentro do calendário anunciado e garantiu que o décimo terceiro dos servidores será integralmente quitado ainda em 2026.
O governador também defendeu a realização de reuniões públicas de transição, com transmissão pela internet e pela Rede Minas, para que os dados apresentados possam ser acompanhados pela população.
Em manifestação oficial, a gestão estadual sustentou que contratos, obras e empresas públicas estão sujeitos à fiscalização dos órgãos competentes. O governo também destacou a redução das despesas com pessoal em relação à Receita Corrente Líquida, de 66,65% em 2018 para 48,80% no relatório fiscal mais recente.
O desequilíbrio das contas mineiras está diretamente relacionado ao histórico de endividamento do estado. No início de 2026, Minas Gerais registrava uma dívida de aproximadamente R$ 187 bilhões com a União, conforme informações encaminhadas pela Secretaria de Estado de Fazenda ao Tesouro Nacional.
Para administrar esse passivo, o governo aderiu em dezembro de 2025 ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag), que permite o refinanciamento dos débitos em até 30 anos, com condições de juros vinculadas ao cumprimento de contrapartidas.
A renegociação, entretanto, não elimina as demais obrigações orçamentárias nem resolve automaticamente os problemas de disponibilidade de caixa.
A situação também afeta as promessas apresentadas por Cleitinho durante a campanha, incluindo a redução do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) e a ampliação de repasses aos municípios.
Com a previsão de despesas superiores às receitas em 2027, a nova administração terá de definir como pretende conciliar esses compromissos com os gastos obrigatórios, o funcionamento dos serviços públicos e as exigências do acordo de renegociação da dívida.
Na quinta-feira, após o discurso no Senado, Cleitinho recebeu atendimento médico devido a uma elevação da pressão arterial e da frequência cardíaca, segundo informações divulgadas por sua equipe. O episódio levou ao cancelamento de sua participação em uma agenda eleitoral em Capelinha, no interior de Minas Gerais.
A troca de declarações ocorre menos de duas semanas depois da eleição e antecipa dificuldades políticas na transferência de governo. Enquanto Cleitinho cobra explicações sobre os recursos que encontrará disponíveis, Simões sustenta que os dados fiscais estão sendo apresentados e que a transição seguirá as exigências legais.
O orçamento de 2027 ainda será examinado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Até a aprovação definitiva, os números poderão sofrer alterações, mas a revisão recente já ampliou o debate sobre as condições financeiras que a próxima administração encontrará ao assumir o estado.
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