Lula tenta reaproximação com Trump e Milei após atritos e aposta em novas alianças internacionais
Governo prepara estratégia para superar tensões com Estados Unidos e Argentina, ampliar mercados na Ásia e fortalecer a cooperação contra o crime organizado.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara uma mudança de abordagem em sua política externa para o quarto mandato, que terá início em janeiro de 2027. Depois de uma série de confrontos diplomáticos com os governos dos Estados Unidos e da Argentina, o Palácio do Planalto pretende priorizar negociações comerciais, ampliar parcerias econômicas e preservar o diálogo com países governados por lideranças de diferentes orientações políticas.
A estratégia, segundo informações divulgadas pelo g1 nesta sexta-feira (30), busca administrar as divergências com o presidente americano Donald Trump e com o argentino Javier Milei, dois dos principais aliados internacionais do senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado por Lula na eleição presidencial de outubro.
A reorientação ocorre em um momento de intensa agenda diplomática. Antes do encerramento do atual mandato, o Brasil participará de encontros internacionais ligados ao clima, ao comércio e à cooperação política, incluindo reuniões da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), do G20 e do Mercosul.
Em novembro, o país também deixará a presidência da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP), assumida após a realização da conferência de 2025, em Belém. A transferência ocorrerá durante a COP31, prevista para a cidade de Antália, na Turquia.
Entre as prioridades do governo brasileiro está a reconstrução do diálogo com Washington. As relações entre Lula e Trump enfrentaram sucessivos episódios de tensão durante o terceiro mandato, especialmente em razão das tarifas comerciais impostas aos produtos brasileiros, das divergências sobre conflitos internacionais e da atuação política de aliados do bolsonarismo nos Estados Unidos.
A expectativa do Planalto é que os dois presidentes possam manter novos contatos ainda em 2026. Ambos deverão participar da cúpula da Asean, nas Filipinas, em novembro, e do encontro do G20, na Flórida, em dezembro. As reuniões poderão abrir espaço para negociações sobre barreiras comerciais, investimentos e interesses econômicos bilaterais. Folha de S.Paulo+1
Outro fator acompanhado pelo Itamaraty são as eleições legislativas americanas, marcadas para 3 de novembro. O resultado poderá modificar a composição do Congresso dos Estados Unidos e influenciar a capacidade de Trump de implementar determinadas iniciativas nos próximos dois anos.
A relação bilateral ganhou um novo elemento de tensão após a viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, na sequência de sua derrota eleitoral. O senador chegou a Miami acompanhado da família e divulgou uma carta na qual inicialmente se apresentou como o verdadeiro presidente eleito do Brasil. A expressão foi posteriormente substituída por “líder do Brasil”.
O governo americano confirmou a concessão de autorização migratória ao senador e seus familiares. Ao mesmo tempo, Trump declarou que não pretende se envolver diretamente nas alegações de irregularidades eleitorais feitas pelo candidato derrotado, embora tenha questionado publicamente o processo de votação brasileiro sem apresentar provas de fraude.
Apesar das divergências, integrantes do governo Lula consideram necessário preservar os canais diplomáticos com Washington. A intenção é retomar discussões sobre tarifas e barreiras comerciais e evitar que os conflitos políticos prejudiquem as relações econômicas entre os dois países.
A cooperação na área de segurança também deverá integrar essa agenda. O Brasil pretende ampliar acordos bilaterais voltados ao enfrentamento do tráfico internacional de drogas e de organizações criminosas que atuam em diferentes países.
O Planalto, entretanto, mantém reservas em relação ao chamado Escudo das Américas, iniciativa lançada pelo governo Trump para ampliar a articulação regional em segurança. Interlocutores brasileiros avaliam que o projeto possui uma orientação política considerada incompatível com a estratégia defendida pelo Itamaraty. A preferência é por mecanismos de cooperação que preservem a autonomia das instituições nacionais.
Na América do Sul, a Argentina representa outro desafio para a diplomacia brasileira. A relação pessoal entre Lula e Javier Milei permanece marcada por declarações hostis e diferenças políticas desde a chegada do presidente argentino ao poder.
Durante a campanha presidencial brasileira, Milei declarou apoio a Flávio Bolsonaro e participou da convenção partidária que oficializou sua candidatura. Após a eleição, o presidente argentino também passou a ser mencionado em meio à repercussão da saída de Flávio do Brasil.
O senador agradeceu publicamente a Milei e a Trump pelo apoio recebido depois da derrota. A movimentação provocou questionamentos de parlamentares argentinos sobre as circunstâncias da passagem de Flávio pelo país vizinho.
Apesar dos atritos, os canais diplomáticos entre Brasília e Buenos Aires continuam funcionando. A parceria comercial permanece relevante para os dois países, especialmente nos setores industrial, automotivo e agropecuário, além das negociações conduzidas no âmbito do Mercosul.
Segundo interlocutores do governo brasileiro, a prioridade será preservar os interesses econômicos e institucionais independentemente das divergências entre os presidentes. Uma retomada do diálogo direto entre Lula e Milei, porém, dependerá da disposição de ambos os governos para superar os conflitos públicos acumulados nos últimos anos.
A política externa do novo mandato também deverá manter a expansão das relações com países asiáticos. O governo pretende ampliar a presença de produtos brasileiros em mercados do Sudeste Asiático e desenvolver novas parcerias comerciais, reduzindo a concentração das exportações em um número limitado de destinos.
A China continuará como um dos principais parceiros econômicos do Brasil. A estratégia não prevê diminuir as relações comerciais com Pequim, mas diversificar os mercados consumidores e ampliar a participação brasileira em outras economias da região.
O governo também pretende fortalecer os vínculos com países como Indonésia, Singapura e Coreia do Sul, aproveitando oportunidades de negociação em setores como alimentos, energia, tecnologia e infraestrutura.
Na América do Sul, a cooperação regional contra o crime organizado deverá ganhar maior importância. O Itamaraty identifica interesses comuns entre governos de diferentes orientações políticas, especialmente no combate ao narcotráfico, ao contrabando e às organizações criminosas que atuam nas áreas de fronteira.
Entre os países considerados relevantes nessa agenda estão Peru, Bolívia e Chile, que mantêm relações próprias com os Estados Unidos, mas também dependem da colaboração brasileira para enfrentar redes criminosas transnacionais.
A proposta envolve ampliar o compartilhamento de informações, fortalecer a atuação conjunta das forças de segurança e utilizar a estrutura de inteligência da Polícia Federal para desenvolver operações de cooperação internacional.
O governo brasileiro também estuda a possibilidade de criar um novo mecanismo de articulação policial em Buenos Aires, reunindo representantes de diferentes países da região. A estrutura poderia complementar centros de inteligência e cooperação já existentes no Brasil, especialmente na Amazônia e no Rio de Janeiro.
As negociações deverão considerar o interesse dos governos vizinhos e as condições jurídicas para o compartilhamento de informações e a realização de ações conjuntas.
Além da segurança, a diplomacia brasileira pretende preservar o funcionamento do Mercosul e ampliar as relações econômicas com os países sul-americanos. Para o governo, a integração regional continua sendo uma ferramenta importante para facilitar o comércio, melhorar a infraestrutura de transportes e ampliar a competitividade das exportações.
O quarto mandato de Lula começará, portanto, com uma agenda internacional que combina a busca por novos mercados e a necessidade de administrar relações desgastadas por disputas políticas. As primeiras movimentações diplomáticas ainda em 2026 deverão indicar como o governo pretende conduzir as negociações com Washington, Buenos Aires e os demais parceiros estratégicos do Brasil.