Prefeitos devem judicializar tentativa de Zema de privatizar Copasa em Minas

Falta de diálogo com municípios amplia resistência ao projeto e pode atrasar planos do governo estadual

Prefeitos devem judicializar tentativa de Zema de privatizar Copasa em Minas

Às vésperas da votação em segundo turno na Assembleia Legislativa de Minas Gerais do projeto que autoriza a privatização da Copasa, cresce entre prefeitos mineiros a disposição de levar o tema ao Judiciário. A principal crítica é a ausência de participação efetiva dos municípios nas discussões sobre a desestatização de uma companhia que presta serviços diretamente às cidades e impacta contratos de longo prazo.

A possibilidade de judicialização surge como resposta ao que prefeitos classificam como um processo conduzido de forma centralizada pelo governo Romeu Zema, sem diálogo estruturado com as administrações municipais. Embora a venda da estatal ainda dependa do aval final do Legislativo, uma eventual disputa judicial pode atrasar ou até travar negociações posteriores envolvendo investidores e o próprio modelo de concessão.

O tema já chegou ao Supremo Tribunal Federal. No fim de novembro, PT e PSOL acionaram a Corte para questionar a emenda constitucional que retirou a exigência de referendo popular para a privatização da Copasa. A ação sustenta que a mudança fere direitos constitucionais da população mineira e enfraquece mecanismos de controle social sobre ativos estratégicos do Estado.

O presidente da Associação Mineira de Municípios e prefeito de Patos de Minas, Luís Eduardo Falcão, afirma que levantamentos realizados pela entidade indicam rejeição maior do que aprovação à privatização. Segundo ele, a expectativa dos prefeitos é que o processo resulte em um texto juridicamente sólido e que garanta melhorias efetivas na prestação dos serviços. Ainda assim, Falcão reconhece que o caminho judicial está aberto. Ele avalia que não apenas os municípios, mas também outros atores institucionais podem recorrer à Justiça.

Em Contagem, a prefeita Marília Campos reforça a crítica à falta de diálogo. Segundo ela, o município foi comunicado por meio de correspondência solicitando anuência para o processo de privatização, sem que houvesse discussão prévia. A prefeita afirma que qualquer posicionamento mais concreto só será avaliado após a definição da Assembleia Legislativa e destaca que o contrato do município com a Copasa segue válido até 2073.

Especialistas apontam que o direito de judicializar é garantido constitucionalmente e que o Estado tem pouca margem para impedir esse movimento. Para o advogado Paulo Dantas, mestre em direito administrativo, o principal fator que reduz a judicialização é o diálogo. Segundo ele, quando os municípios são incorporados ao processo decisório, a tendência é que conflitos sejam minimizados ou postergados. A ausência dessa construção aumenta o risco de ações judiciais, mesmo que o Estado tenha seguido os ritos legais.

Na avaliação do advogado, a Justiça costuma preservar processos de desestatização quando os procedimentos formais são cumpridos, mas a simples existência de ações judiciais já provoca atrasos relevantes. Ele defende que o governo estadual apresente de forma clara os benefícios esperados com a privatização e construa consensos antes da conclusão do processo legislativo.

Uma alternativa para reduzir tensões pode estar na regionalização do saneamento. O projeto que cria blocos regionais foi aprovado recentemente pela Assembleia e prevê adesão facultativa dos municípios. Nesse modelo, cidades podem se organizar para realizar licitações conjuntas, aumentando a atratividade econômica e a capacidade de investimento, especialmente em regiões deficitárias.

Segundo especialistas, a formação de consórcios públicos permite equilibrar custos, ampliar investimentos e garantir a universalização dos serviços. No entanto, a construção desses blocos depende mais de articulação política local do que de entraves legais, exigindo alianças entre prefeitos e maior coordenação regional.

Enquanto o governo Zema acelera a tramitação do projeto, a reação dos municípios indica que a privatização da Copasa, mesmo que aprovada no Legislativo, pode enfrentar um longo caminho nos tribunais.