Paulo Hartung: “Opinião | O caminho da ciência”

Ciência e inovação se tornam essenciais para enfrentar mudanças climáticas e garantir o futuro da produção sustentável

Paulo Hartung: “Opinião | O caminho da ciência”

Somos bilhões de planetários dependentes da natureza, por nós próprios debilitada dia após dia. As previsões para o futuro deixam o cenário mais temerário: a população cresce, enquanto se intensificam os efeitos sobre a Terra das mudanças do clima.

Investimentos em ciência oferecem uma bússola para a caminhada humana. Se não nos prepararmos adequadamente, corremos o risco de tornar inviável a produção de alimentos e artigos indispensáveis à nossa sobrevivência.

No Brasil, há exemplos que podem iluminar o trajeto. Refiro-me a setores econômicos que há décadas investem em pesquisa e desenvolvimento para viabilizar uma produção cada vez mais sustentável. Um desses exemplos é o setor de árvores cultivadas para fins industriais e de restauração de nativas. Referência global na bioeconomia, essa indústria entrega uma infinidade de bioprodutos desenvolvidos a partir de matérias-primas renováveis. São embalagens, livros, copos e canudos de papel, papéis de uso higiênico, até mesmo roupas feitas de fibra celulósica, como a viscose, além de móveis, biomassa energética e novos usos que não param de se multiplicar.

Bioprodutos, enfim, que hoje chegam a quase 4 bilhões de pessoas. O Brasil é o maior exportador de celulose no mundo, o sétimo maior produtor de papel e está entre os dez maiores fabricantes de painéis de madeira. Apenas no ano passado, o setor exportou US$ 14,9 bilhões.

As empresas responsáveis por isso cultivam árvores em 10,5 milhões de hectares no País. Plantam, colhem e replantam seguindo técnicas de manejo responsáveis. Destaque para os mosaicos florestais, que consistem em intercalar plantações comerciais de árvores com áreas de mata nativa, formando corredores ecológicos que ajudam a conservar o solo, os recursos hídricos e a biodiversidade. O setor conserva mais de 7 milhões de hectares em florestas nativas. Faça chuva ou faça sol, as empresas plantam, diariamente, 1,8 milhão de árvores, restabelecendo a cobertura vegetal em áreas antropizadas. Essas árvores capturam gás carbônico da atmosfera e o armazenam. Vale lembrar que, segundo o Atlas da Pastagem, da Universidade Federal de Goiás, há no Brasil mais de 100 milhões de hectares de terras com algum nível de degradação, que podem ser convertidas para a produção de alimentos, grãos, fibras, energia e para a restauração florestal.

A indústria brasileira de árvores é um caso de sucesso, mas tem seus desafios. O setor sofre não só com o recrudescimento do protecionismo, que desrespeita as normas do comércio internacional, mas também com o incremento de importações em segmentos como o do papel cartão, em consequência do fechamento de mercados.

Internamente, continua enfrentando múltiplos problemas que solapam nossa competitividade global, tais como carga tributária excessiva e mesmo limitações à disponibilidade de recursos humanos.

Há igualmente o desafio do aumento da demanda por madeira. Na década de 1970, a produtividade média das árvores plantadas estava na casa dos 10 m³/hectare/ano, enquanto hoje chega a 33 m³/hectare/ano. Produzimos mais, usando menos recursos naturais. Esse avanço aconteceu graças a apostas, lá atrás, em pesquisa e inovação, em melhoramentos tradicionais e seleção de espécies que permitiram a criação de indivíduos mais adaptados a microrregiões.

Não obstante todos esses avanços, a verdade é que a expansão da demanda por produtos de base florestal está sombreada pelos impactos das mudanças climáticas. Muitos pesquisadores consideram ser necessário aprofundar discussões sobre biotecnologias para que a resiliência climática se dê no tempo necessário.

Dentre as rotas no radar, não podemos deixar de explorar o potencial de novos recursos, como a edição gênica (Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats) e Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). Estudar e desenvolver esses caminhos significa a possibilidade de árvores mais resilientes ao aumento de temperaturas e à diminuição de chuvas, mais resistentes a pragas e menos dependentes de pesticidas.

Com adequada regulação sobre biossegurança, à luz da melhor ciência, que por sua vez precisa engajar os grandes sistemas internacionais de certificação, parece ter chegado a hora de revisitar essa agenda.

Outra adversidade antiga com que nos defrontamos é a da infraestrutura – rodovias, ferrovias e portos, além da precária conectividade no campo. Para se manter funcionando, o setor tem sido obrigado a abarcar em seu orçamento investimentos em infraestrutura, o que não se mostra suficiente. O governo precisa melhorar o ambiente de negócios e garantir a segurança jurídica, a fim de atrair capital privado para dotar o País de infraestrutura adequada.

A agroindústria das árvores cultivadas é exemplo de setor que deu certo no Brasil. Apostou em pesquisa, formou capital humano e foi ao mundo conquistar mercados. Sua impressionante trajetória está registrada no documentário Novas Raízes – Escolhas do Futuro, disponível na HBO Max.

Passado e presente são importantes, porém não bastam. Temos vitórias a celebrar, mas também grandes desafios a serem endereçados. Neste texto estão citados alguns. É hora de escrevermos novos capítulos nessa história de sucesso. Os setores produtivos devem ser parte da solução. Estamos prontos para abrir os caminhos que nos levarão ao futuro que já está à vista.